Mil Oitocentos e Vinte e Cinco Dias

IMG_0773.jpgIMG_E0751.jpgCinco anos. Colcados assim adquirem menor importância do que o título sugere, mas é tempo do mesmo jeito. Adquiri essa mania de contar os dias.  Um por vez. Todos com a mesma importância que vem do tempo de ver você acordar,  dormir, comer, ir a escola. Tempo é algo precioso, um rio que flui, as vezes parece correr. Esse está correndo

Daqueles 90 dias de você me olhando na banheira. Algumas viagens. Uma ausência. A presença.  A festa do seu aniversário onde pulou e correu e comeu e riu. Não adianta muito escrever sobre o que é uma festa de aniversário de criança. Não é sobre isso que abro esse computador para escrever desse meu jeito torto, mas sim o que foi e o que será esse tempo. Nem ao me olhar no espelho vejo o tempo passar, porque o tempo é sutil as vezes. Sinto o tempo ao passar a mão pela barba que te espeta e perceber que ela cresceu. Eu, por acaso, sinto os dias atualmente ao acordar.  Isso porque, meu filho, a gente já não se vê todo dia. Não é mais todo o dia que te vejo ir dormir. Não é mais todo dia que te vejo acordar. Isso você vê. Isso eu sinto.

Eu, papai, já não moro mais na mesma casa que sua mãe. Sem ressentimentos. Apenas não moramos mais juntos. Eu, Rogério, tenho uma outra casa. Que é sua também. Onde há o quarto do filho, com alguns brinquedos ainda espalhados tentando desesperadamente fazer volume. Com armários e gavetas ainda vazios de pequenas cuecas e pequenas calças, que estão sendo usado para grandes malhas que ainda não sei colocar no meu espaço.  Não sei onde colocar tanta coisa, não pela falta de espaço nessa nova pequena casa, mas por ainda sentir-me meio perdido sem tropeçar em dinossauros e carrinhos pelo chão da casa. Parece ainda que você não ocupou esse espaço.

Sua presença existe todo dia virtualmente, pela tela do celular, onde me mostra um livro novo, ou um desenho, ou simplesmente da tchau. É tudo novo nesse espaço que ficou aqui dentro. Como se não soubesse aonde arrastar os moveis novos ou a estante nova. Mas tem lugar. E tem estante. Só entender onde colocar.

Uso essa metáfora de estante, porque na vida real, ainda não tenho estante para exibir minha literatura. Talvez estantes sirvam para que uma historia que gostamos, poder estar a um braço de distância, evitar a saudade, vendo sempre o tomo do livro ali. E como evitar a saudade sua? Te colocar em uma estante? Você ia ficar pulando e subindo a estante de novo e de novo. Meu medo filho, é que não queira subir na estante que vai ter na sua casa nova. Meu medo, hoje, é isso do dar tchau. E estar ausente. E achar que isso normaliza, essa saudade de um dia.  Há saudade do pé na cara as duas da manhã depois de você pedir cama para um sonho de dragão que corria atrás de você. Ter saudades dos seus pesadelos é maldade minha. Dá mais saudade de quando lembro de você falar sonhando e gargalhando. Saudade do seu sonho. Mas você já dormiu aqui. E, por uma dessas manhãs abençoadas, eu acordo com seu bafo de criança e mão aninhada na minha nuca. Ocupou o espaço.

Da primeira vez que dormiu, acordou espantado dizendo “Passou a noite inteira e já é dia? Iupi!” O tempo passou; sai da cama baixa e vai correndo para o mundo do Lego que montamos noite passada, enquanto eu ainda tateio o raio da manhã e checo o relógio para ver se já é depois das 9. Era 7:30. Tudo bem. Mais tempo de você. ” Vem Pai!.” O Pai agora tem que estar sempre no mesmo recinto, mesmo que um quarto do outro tenha a distancia de exato um passo. Não é no recinto, é na brincadeira real. É o famoso estar presente de corpo e alma.

Não é simples, mas é a vida. Papais e mamães em todos os lugares por vezes moram em casa diferentes, mas continuam lá, para te guardar de dragões, passar manteiga no pão e trocar o xixi que vazou a noite. Um de cada vez, agora. Mas em uníssono, pelo menos por aqui. E dou graças a isso. O que sinto hoje é a transformação do amor com a Tania por algo de conexão, de troca e compasso. Ajeitando, será que precisamos de um metrônomo? Fazer o papel do Pai, espero estar a altura para você e sua mãe. Nunca ser pai de fim de semana, ser pai de todo dia e criar junto. Mas é tudo da ansiedade de como vai ser. Como era estava destinado a esmaecer. Mas o uníssono não esmaece. Metrônomo de sentimento.

Tempo, tempo , tempo. Dar tempo ao tempo. Plantar uma semente e regar e torcer para ela vingar. Cuidar de jardins , limpar a mata antiga e deixar as flores que valem a pena cuidar. Tudo demanda tempo . E hoje é o tempo que tenho que entender quando você vai estar devidamente empossado do seu novo quarto, que agora tem um pequeno abajur em forma de girafa de luz, um abajur que ilumina o suficiente para deixar o quarto aconchegante; esse ponto que faz o quarto por horas vazio permanecer de você . Tempo e espaço, filho. Para preencher meu tempo e meu espaço que levo aqui dentro.

Tempo de entender a família nova, o carinho mudado do papai e da mamâe, os medos de cada um, os seus medos. A sua braveza que sente agora, e não sabe como lidar. Papel de pai: a casa nova é sua e segura. O Filho Eterno espera aqui o filho real, em um quarto que vai estar cheio de você e de mim, e de alguns Legos.

Hoje estou aqui na sua casa de mãe, equanto vigio sua febre alta, dor no corpo, prostrado. Dodói não deixa descansar. Vigio o corpo e acendo a luz da girafa para guiar a alma.

Alma é uma palavra que uso tão pouco mas sinto tão presente. Alma para um ateu como eu era assunto proibido, mas sinto esse abrir de mente para forças, coisas, entidades, anjos, conexões. Girafa de luz que acendi aqui dentro. Estava  um pai desconexo, faltava esse abajur aqui dentro durante uns tempos. E hoje, voltando aqui nessa casa que já não é minha, sinto conexão com você, coisa que só alma para explicar. Sinto a parceria que é a confiança que sua mãe deposita em mim. Por fora rebuliço, na alma calma. 39,7 e a febre não dessce. Mas desce sim filho, e o dodói vai embora.  A gente as vezes vai lembrar deles, como uma cicatriz, mas eles sempre passam. E a gente, papai e mamãe, aqui, no lar possível para todos.

Minha esperança cresceu. Meus planos mudaram de ontem para hoje. E minha casa mudou de novo de ontem pra hoje. A casa é um espaço, só isso. Mas nesse espaço que a gente faz lar. E você tem dois! De amor tão grande e irrestrito, que já nem me preocupo com os dinossauros ou a falta deles na minha casa.

O dia mudou e o limite das casas pode parecer se desfazer mais uma vez. Talvez para você seja dificil entender isso, mas o centro do espaço que é lar não muda. É o que me lembra de cortar a barba, dobrar as roupas, preparar o jantar, manter o rio do tempo fluir e acima de tudo sonhar e torcer para que a pele nova que visto seja leve. E que ainda dê para te sentir.

Vai embora, febre. Vai embora que meu filho quer nanar no lar que estou a descobrir.

 

1 comentário

  1. Muito interessante teu blog e a temática, pode parecer clichê em dias atuais, mas necessário para uma mudança de costume familiar. Essencial para pais e mães e filhos também! Sucesso 😉

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