O Cheiro da Memória

–  Ai, pai! Sai daqui! Você esta com bafo de banana velha.

Papai tinha fumado. E comido uma colherada de Nutella.  Já disseram que tenho um cheiro único. Já disseram que cheirava a batata podre. E você solta puns. Fedidos. Bombas mesmo. Comeu um urubu. E se diverte.

Eu quando cheiro a batata podre não me divirto mais. Todo mundo solta um punzinho numa hora inoportuna, e isso é normal, mas aos cinco é quase uma manifestação na Paulista contra o fascismo; -Soltei sim!.

A gente cheira único, e grande parte da memória da relação fica ai. Tem gente que é mais perdigueiro e vai ver cheiros na gente que nem a gente sabe. Aquele cheiro familiar, próprio, que só a gente tem. Você, tirando os puns, cheira a Gabriel. Não dá para explicar, é um cheiro de pele mas única, não tem perfume,nem pum… mas aposto que se me vendassem e te colocassem entre outras crianças te achava pelo cheiro. E o engraçado é que você fala o nosso cheiro. – Mamãe esta cheirando a shampoo. Qual será o cheiro caracteristico da sua mãe? – Cheiro de mamãe, ué? – me diz. Meu cheiro te agridiu, é certo. Quanto dessa memoria será levada. -Meu pai cheirava a…  Quanto eu faço hoje, com você aos cinco, que esta se fundindo na memória e ajudando (será essa a palavra?) para me construir como pai? Esse ser que fala a hora de dormir, de acordar, prestar atenção na comida, sair do celular e quando não esta muito embarulhado gira uma poltrona da sala que é nossa máquina do tempo ou te jogar na cama de alturas cada dia mais ousadas.

Eu lembro de como meu pai cheirava. Cheirava a meu pai. Vinha do consultório onde é dentista, e tinha essa mescla de cheiros que não sei colocar em palavra, mas era cheiro do meu pai. Um pouco de desinfectante misturado à pasta de couro. Tem gente que guarda cheiros meus. Eu guardo uns outros, especiais. Tem um que para mim é inesquecível. O da Escolinha da Tia Uta. Com meus 3 anos para 4. Só posso descrever como cheiro de massinha de modelar feita de madeira. De quando em vez sinto esse cheiro e me remete para lá instantaneamente. E é engracado como esse cheiro é fugidío! Logo passa. Não sei de onde veio. Assim, talvez, como vai ser com você quando crescer. O Cheiro do Seu Pai. Que você deu nome. Mas será que vai ser só esse?

Se tivesse que falar em cores, diria que a Tia Uta cheirava a amarelo escuro. Meu pai, a um marrom couro, minha mãe verde. Forço um pouco a barra contigo, mais pela minha insegurança de estar cheirando somente a cigarros e não a Nutella, e pergunto:

– Que cheiro eu tenho?

– Cheiro de papai.

– Sim, mas como é esse cheiro?

– De papai, ué?

– Se fosse uma cor, que cor seria?

Pensa. Olha para mim com uma das narinas meio entupida de catarro.

– Azul…não, blulbérri.

Sossego. Sossego? Ja disse que os gregos não tinham a noção do azul. Já os Egipcios conseguiam produzir o pigmento. Azul era um pigmento raro de se fabricar no Renascimento. Destinada a realeza, usava-se o  lapis lazuli, um pedra cuja grama era vendida tão cara quanto ouro. Era o ultramarinho. Azul era o mar em que pulei que logo tornou-se índigo e depois verde. Você olha para o céu e instintivamente sabe do que se trata aquela cor. Talvez os gregos não. A onda com mais energia dentro do espectro eletromagnetico visivel, que identificamos como azul. Na imensidão do azul a gente pode se perder, assim como na memória. A sua ainda se forma, entre Nutellas, cigarros, sabonete (sim, tomo cuidado com os cigarros), pastilhas, perfume, talco para os pés, desodorante, suor.

A gente guarda os cheiros na parte da memória emocional que se ativa feito uma arvore de natal quando pensamos neles. Grama molhada, café (exceto para algumas grávidas), papel, mimeografo ( geração X sabe do que falo), latas de filme antigo (vinagre), gérberas, um perfume de 22 anos atrás, colonia para bebês, comida recém pronta, vela, carne queimada por um bisturi elétrico marcou seu nascimento. Era doce. Tudo isso é fácil. Tudo isso me construiu. E a você? Qual será o cheiro da sua escola? Vai se lembrar dele e imediatamente estar lá de novo?

Dou minhas escapadas à noite na despensa, e dou aquela colherada cheia de Nutella para dentro da boca. Você volta logo com a frase : – Papai tá cheirando a Nutella. Melhor que banana velha. Ás vezes é pizza. Ás vezes bolo. Mas é isso. Para sentirmos cheiros precisamos estar pertos, proximos E dai não importa muito como serei lembrado. Banana velha, Nutella ou blueberry (achei pernóstico deixar la em cima em inglês. Vai que é uma cor que ele inventou?). Vai ter esse cheiro que um dia você vai lembrar: esse era o cheiro do meu pai. Que estava do meu lado, na minha casa, no meu carro, na minha cama. Papai está do lado. Que seja só o corpo e o cheiro nesses dias estranhos.

E que não seja de batatas podres, um dia de cada vez.

E Azul é sua cor favorita.

 

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