O Meu Sentimento Oceânico

Você fazia aulas de natação, até que um dia desistiu de ir. Já pulava, mergulhava, atravessava a piscina (bem, da segurança de um professor a outro, mas um Phelps por esses olhos aqui.) Mas desistiu. Disse que tinha medo. E a gente tentando entender esse medo, se era de um professor, da água, dos colegas. Sentia medo. Eu sinto medo.

Você me ve sentindo medo e talvez esteja puxando isso demais de mim. Eu não tenho medo de psicinas. Mas eu tenho respeito pelo mar. Como uma vez, que eu, todo heróico, me lancei de uma escuna que havia parado em um ilha direto ao mar para chegar a praia nadando ao invés do bote. Lá fui eu. Primeira braçada, decima terceira braçada e a praia ia ficando cada vez mais longe. Centesima braçada, e a praia de revés. Tinha meus 25 na época, tinha pulmões, pernas e audácia de sobra. Não sobrou. Me vi uma hora desistindo, boiando enquanto tentava recuperar o folego e dizendo : ” É isso. Essa é a hora da minha morte”. Não ria. Você tem a mesma dramaticidade que eu. Basta uma topada em um armario e o ” pé quebra”. Foi importante não me manter em paz com aquele sentimento. Me fez virar de novo, com medo de me achar novamente longe e sem pé, e  dar uma braçada… que ficou na areia. Estava con uns 30 centimetros de agua ate o chão. Já havia chegado. Cansado. Pernas bambas, tremia, mas vivo. Um pouco envergonhado, claro, mas vivo. Lembro de ficar uns minutos sentado, recuperando o folego e me maravilhando no final de ter ido até o fim. Era maravilha aquilo. O azul, a escuna ao fundo, o bote que chegava. E eu quieto. Não falei a ninguém da experiência. Pela primeira vez senti.

Hoje você se limita a mergulhar nuns 30 centimetros de agua potável, rodeado de dinossauros e baleias, na banheira da sua casa. E fica ali boiando por vezes. Cabelinhos soltos na agua, pernas abertas, pipi sem censura. Dono. Quanto de oceano a gente precisa para se sentir assim? Aquele que eu estive? A piscina que te da medo? A banheira de casa? Só por que é segura demais? Tem mais la fora.

Acho que nessas horas eu me lembro e você me ensina que o importante é flutuar. A praia esta lá, cuidado com a correnteza, mas a praia chega. Se ela te ama ela chega. E você me falaria: Praias amam? Se a gente as admirar sim. E chegar à praia é só metade da aventura. Você chegou, respira de novo, perna tremendo, sente o grão de areia que há milhões de anos tem sido feito no vai e vem das ondas e se sente parte. Olha as árvores, a pequena montanha da ilha, toca na areia de novo. Desenha. Vê um carangueijo fugindo. Que história para contar se tivesse simplesmente desistido de boiar. Acalme-se, te ajudo se precisar. Entenda o seu medo.

Quando a gente desiste da psicina tem que entender o medo, Gabriel. E ver ele de frente. Quando a gente desiste de ir ao circo porque tem medo, tem que entender esse medo. É o novo? É o maravilhoso que a gente teme? É a experiência?

Já tratei dos meus medos aqui e te asseguro: vai. De novo, vai. Boia na agua na hora que tudo mais estiver perdido. Mergulha quando da pé. Ou quando não da. A gente só vai saber mergulhando. Mas não deixa de mergulhar nesse oceano. Tive uns medos que me impediram de chegar em praias tão lindas. Espero que ainda estejam lá.

Mergulhar nesse mar ciano azulado; Dizem que os gregos não conseguiam entender a cor azul do mar. Discussão longa, que na Odisséia o mar é retratado como cor de vinho. A palavra azul não é mencionada. Hoje, nessa banheira, a cor da agua é transparente, branca pelo plástico da banheira. Mas e o mar onde me afoguei? Mas e a psicina de que tem medo?

Azul. Deitar no azul e deixar o medo ir embora. Esquecer desse azul. Na pisicina você se sentia completo de sentido aos meu olhos te vendo brincar e pular e mergulhar. Parecia estar num outro elemento, oceânico, por mais raso que fosse. Teu oceano. Acha teu oceano e mergulha, sem medo.Nem precisa ser mais a pscina da aula de natação.  Mergulhamos juntos e descobrimos cores diferentes lá embaixo, saindo do raso, arranjando guelras e se maravilhando com a possibilidade do ir além do medo. Explorar. Tocar. Amar. ufa, cara! Quanta coisa tem aqui!

Torço, Gabriel, para que um dia seja e me mostre que é ” Um ser imerso de sentidos em um oceano de revelações.”

Pulo no meu oceano ( que para mim é índigo) e procuro essas revelações. Acabo achando em mim mesmo, na simples coragem daquela braçada que desafiou o medo de não chegar.

Tchibum!

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