Da máquina do tempo e dos monstros

Apareceu essa grande caixa de papelão por aqui na sala hoje. Dentro, um tapete para bebês, que era para seus afilhados. Mas claro, que o tapete não lhe importou nem um pouco. Era a caixa. Um metro e trinta por 60cm. E o mundo la dentro. Começou com o esconderijo do Grinch. Depois virou algo onde só cabiam os dinossauros assim sem orderm própria. Depois começou o dificil.

–  Papai, o que pode ser essa caixa?

Eu adquiri um mundo maravilhoso de coisas que só acontecem na minha cabeça (a frase não é minha, mas de alguém querido). E para mim só podia ser uma máquina do tempo. Na verdade, para mim, máquinas do tempo são o que mais acontecem nesse maravilhoso mundo das coisas que só acontecem na minha cabeça. A possibilidade de voltar atrás e consertar erros do passado, pegar chances passadas, intervir antes que uma desculpa (que por vezes não vem ) seja necessária.

– Não- diz você-. E se ela fosse o esconderiljo do lobo mau e você fosse o lobo mau e viesse me pegar?

A carapuça de monstro se ajeita altamente confortavel em mim esses dias. Grunhi, levantei os braços com pouca vontade e te persegui pelo corredor durante um tempo até  deixar você sumir de vista, na dobra do corredor para a sala e permirtir que entrasse no esconderijo.

E senti cheiro de moleque de 5 anos, dizia.

E bufei e grunhi de novo.

E você quieto.

A caixa abre em supresa para ver o sorriso de orelha a orelha enquanto ponho a funiconar os dez dedos de minhas mãos em barrigas e costelas para arrancar garagalhadas. O Lobo Mau que não devora. O monstro mal feito. O monstro que não causa medo.

Monstros personificados são outra coisa. Para esses, só maquina do tempo. E voltar e falar o quanto o monstro que, mesmo que seja a critaura de Frankenstein, que de nada de monstruosidade tinha, tem que adequar seus modos aos modos e sentimentos de outras pessoas antes de grunhir de fome. Antes de grunhir da própria dor.

Tive grunhindo muito de fome esses tempos todos. Tanto, que me surpreendeu quando hoje você me chamou para brincar, me tirando desse estupor de luto, para saber o que fazer com uma grande caixa de papelão, que depois rodopiava (as custas dessas costas sem exercicído de quem escreve) pois era um avião sem controle caindo pelos céus. Você unico passageiro que ria. Nossa, deus nos livre…

Tenho dito palavras erradas. Com você e com outros. Mas não por monstruosidade, mas sim por tentar matar o ser bom que há em mim. Parece incongruente, mas sou vítima fácil de apontar e ser apontado em erro.  Parece que não quero dar força às vezes a noção que ninguém é bom ou monstro o tempo todo, que erramos, que machucamos, mas que também trazemos alivio. Da mão dada ao Saridon. Da promessa mal cumprida ao absoluto medo do primeiro passo. Do livro comprado as pressas ao doce da padaria.

Lembro-me de um ” cursinho ” de pais que fizemos eu e sua mãe, e uma das tarefas era dar banho em uma boneca. Era minha vez após todas as instruções da enfermeira. Carregava aquela boneca de plastico barato, olhos ja apagados de inumeras imersões na agua. Ela pesava como se tivesse oitenta quilos. Tinha mil dedos e mil atenções. Minhas costas travaram. E quando foi hora de tirar a boneca da banheira achei que não ia conseguir, tamanha a dor. Uma coisa que a enfermeira nos avisou é ” ao tirar a boneca não fiquem tentados a sacudi-la, como que para tirar o execesso de agua”. Foi a primeira coisa que fiz. Coisa de monstro. Trauma violento craniano pediatrico. Dá cadeia.  Havia dado banhos em bebes antes. Doces, atenção e carinho. Eu que nunca afoguei ninguém. O medo que deveria ter é afogar quando vocês são grandes.

E a tensão em seu primeiro banho ” não sacode! não sacode!”. Trauma vencido. Monstro ensinado, tal qual tivessem ensinado a criatura de Frankenstein a amar de verdade. O monstro treinou a ser bom ou apenas a prestar atenção? Monstro pacificado, que teima em reaparecer e eu teimo em alimentar, mesmo enquanto escrevo.

Como dizemos me desculpe, após a terceira vez? Quem acredita em um me desculpe de um monstro, pela terceira vez? O monstro não cabe em maquina do tempo nenhuma e segundo Hawkings, bem…

A gente muda, Gabriel. E fala que a caixa é sim maquina do tempo. Que nos leva, eu e você, ao Jurassico, ao Triassico, ao Ordoviciano, onde brincamos de ficar sem ar pois não existiam plantas terrestres naquela período. Mas não conserto erro nenhum com essa máquina de visitar Titãs. Apenas brincamos quando o T-rex se aproxima de correr de volta a caixa e se pirulitar dali. Eu faço meus pequenos remendos daqui para frente, e tento ficar mais com você, com cara menos fechada, com menos lagrimas nos olhos, com Lobo Mau sim, mas só de cócegas. Nada de Saturno aqui.

Eu queria muito uma máquina do tempo mas elas não existem. Eu queria muito não errar. Mas talvez dai, como saberia da minha própria monstruosidade?

Prometo ser apenas o monstro que me cabe. Prometo girar mais e mais essa maquina do tempo que só chega onde caminhamos com dinossauros.

 

 

 

 

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