Da Ausência

Você vai fazer cinco anos agora. Cinco.  Quatro anos e 9 meses que não escrevo uma linha. Não foi por preguiça, por falta de assunto, foi por mim, que se perdeu um pouco. Mas continuava e continuo aqui. Você falou as primeiras palavras que já nem lembro quais eram. Deu seus primeiros passos, e lembro de ver você segurando a mão de meu pai, lutando contra a Lisa (uma Pastor de Shetland) que queria arrancar teu brinquedo, mas andando. E ia, decidido como ainda é.  O coração pulou ali. Não era mais o bebê de 90 dias.

Deus! 90 dias foram os melhores da minha vida. Não há o que comparar. Andava uns 5 cm mais alto, falava rindo, serotonina jorrava do meu cerebro. Porque parei de escrever para você, meu filho? Tantas respostas para essa pergunta. Mais ainda, porque não parei de te amar? Moleque que não para, vê Tartarugas Ninja e quer fazer Ninjutsu. Você foi a uma aula de Kung Fu. Ficou no colo; as vezes levantava e repetia os gestos, mas de longe. Esse é você.

Você gostava de dinossauros aos 2 ou 3 anos. Sabia todos os nomes. Sabia todas as Eras e Periodos em que viveram. Eu me enchia de orgulho e admiração. E via. E estava lá, te acompanhando no Ordoviciano onde não existia oxigenio e só monstros marinhos. Estava la com você, por favor se lembre disso e quando for mais velho, diga: eu lembro de você assistindo comigo Caminhando com Dinossauros, só para que eu tenha certeza que estava ali.

Como alguém começa a ficar ausente? Com a cabeça no mundo da lua? Vi realmente teus dentes nascerem? Vi sim. Vi você aprender a se trocar sozinho? Vi sim. Vi você ir a escola pela primeira vez, vi você ter sua fase de “orelhas”; não podia ver a orelha de alguém que logo se pendurava nela. Um token seguro. Na minha. Na de sua mãe. Vi você comer rucula crua e hoje vira a cara para qualquer coisa que não seja arroz, feijão e bife. E um peixinho e franguinho de lá em vez. Vi você no parque da Agua Branca com admiração e medo das galinhas. Foi lá desde que nasceu e continua indo. E com a mesma admiração e medo das galinhas e do pavão. Vi você fazer piruetas. Amenizei sua primeira, segunda e   décima quinta febres. Vi você começar a ter medo de escuro, de aranhas e leões gigantes. Vi você com cocô até a cabeça depois de uma viagem onde as fraldas não aguentaram.

E porque não escrevi?

Não tem resposta facil, meu amor. O mundo foi mudando, você foi mudando, eu escorreguei, eu me atrapalhei. Ninguém tem culpa de um cronista de meia tigela ter simplesmente parado um blog sobre seu filho.

Seu filho.

Me diz Gabriel, quando tiver mais idade que tipo de pai eu fui para você? Que tipo de exemplos te dei? O que ajudei você a se tornar?

Você ainda me ama?

O papai que abre a porta da casa e ve você na maioria das vezes vir sorrindo e correndo dizendo papai chegou. Outras você ta é vendo Luccas Neto que sei!

Dessa casa. Como ela se transformou mas parece que eu não mudei. Como você cresceu e parece que eu não cresci.  Como eu queria ter escrito tudo isso, como eu queria ter tomado aquele rumo ao inves desse, como queria ter provado aquela bebida em vez dessa, como queria ter comido dadinho de tapioca ao inves de kibe. Como queria ter escrito mais. Mas de certame tem você. Meu norte, meu sul, meu oeste e leste. Você merece mais um pai melhor. Ele virá?

Gabriel, tem vezes que te coloco na cama, sob a luz verde do nosso abajur de dinossauro, afago leve seus cabelos lisos, beijo sua tempora e há essa mistura de sentimento de ” onde estava com a cabeça??” ou ” Você é só carinho em minha vida”. Eu tento dar ao maximo, tento estar presente ao máximo, tento te agarrar ao máximo, tento e jogar cada vez mais alto para cair na cama, tento brincar como o Destruidor cada vez mais no papel certo. Tento

Tenho conseguido?

A vida nunca fica a mesma, e quando escrevo agora ela certamente não é a mesma de 4 anos e 9 meses atrás.  Nunca sonhei em te dar broncas, mas o papel do pai as vezes sai natural e a bronca vem. E não me sinto mal. Me sinto Pai. Torto, mas pai.

Você mudou mais do que eu e te admiro por isso. Enfrenta com coragem os desafios, não leva desaforo par casa apesar do tamanho, é aventureiro, luta com criaturas miticas e cria desenho de monstros. Só olho. Não escrevo. Devia escrever mais.

Sera que escrevendo sai essa coisa do peito?

Escrever parece que parou, fiquei sem assunto. Parei. So fiquei observando o tempo passar e ele passou. Não consigo pegar o tempo. A gente recomeça. A gente tenta de novo. A gente tem esperança que tudo mude ou algo volte. A gente tem esperança de ser feliz. Eu tenho a esperança que dentro dessa cabecinha coberta por uma vasta cabeleira lisa castanha bem clara, seja felicidade pura. Quero beber dessa fonte.

Gabriel gosta de pão com Nutella. Lanchinho da noite (não me repreendam). Gabriel gosta de andar fantasiado. Gabriel gosta de ganhar presentes e cortar o cabelo. Gabriel gosta de festas. E o pai do Gabriel gosta do Gabriel. O resto, de repente, fica vazio. Mas um vazio que se preenche, certo Gabielo?

Tenho 1,62cm. Sempre achei que pais deveriam ser altos. O meu é mais alto do que eu, o que não quer dizer muito porque quase todo mundo é maior que eu. Parece que não possso ser pai exemplo por isso. Mas dai lembro das minhas mancadas e acertos. Oxala esteja alimentando ele dos meus acertos! Das minhas pequenas coragens, pois tenho mais medo que coragem. Bem, isso não falta nele. Da minha pequena assertividade e positividade, porque as vezes é dificil transmitir isso.

Lembro do dia que cheguei chorando em casa ou quase chorando. – Isso é lagrima papai? – Não, é que meu olho ta meio ruim. Ele limpou minhas lagrimas e de repente começamos a gargalhar sem porque até cair no chão. Ele: – Isso é bom. A gente chora mas depois da gargalhada. Extase. Epifania. Arrebatamento.

Capacidade de mudança. Voltar a escrever. Por para fora e ainda mais narrar a aventura de ser pai da segunda criatura mais amorosa e linda da face da Terra. Digo segunda porque não conheço a primeira e tenho modéstia.

Eu vou ser seu pai para sempre. E você meu filho, espero que deixe eu ser seu pai para sempre. Esse pai torto, que se corrige, que pede desculpas em demasia, mas que tem seus acertos. Espero estar acertando com você. Um pai que dê exemplos fazendo-os

A gente ainda vai falar do seu dente podre, da sua cara quando solta pum, das aventuras subaquaticas na banheira, dos passeios, das idas e vindas, da sua doçura quando ainda pega na minha orelha quando quer se aconchegar.

Pegue na minha orelha sempre, tá?

 

1 comentário

  1. Se perdoe. O texto trata mais de você do que do teu filho. Se perdoe e mude! assim as coisas acontecem, voltam, mudam. Você é um excelente pai. Parab´´ns pelo blog, Me deixou emocionado ler teus textos. Continue.

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