Nessun Dorma

E mais um  Sol nasceu com Gabriel no colo. Dormia relaxado, enovelado em si mesmo feito um tatu bola  após a primeira mamada do horário comercial, por volta das 6 da manhã. Eu de pé no meio de sala, de pijama e  olhos maravilhados, dividido entre pegar a câmera e registrar tudo no instagram ou acorda-lo para  “mostrar” o sol, decidi simplesmente assistir a algo que há décadas não fazia. Deixo  ele se aconchegar um pouco mais, ouvindo a respiração suave e cheia de barulhinhos que só bebes fazem, bumbum apoiado na minha mão, quase sentado, deixando o tronco contra o meu peito e a  cabeça encaixada um pouco abaixo do meu queixo. Tenho os olhos ainda meio embaçados de sono, mas que veem tudo. Moramos num andar alto, pode se ver a linha do horizonte acidentada do relevo de São Paulo cercada pela Mantiqueira e um mar de prédios. O céu minutos antes tem cores de ciano claro em sua parte mais alta e nuvens douradas  soltas e parecendo algodão doce. Mais próximo do horizonte uma linha rósea purpura (magenta mesmo) delineia e denuncia onde a coroa do sol vai despontar. Tudo parece estático nesses minutos. E bonito mesmo. Sobre um pico no horizonte, entre dois prédios um pouco mais altos e mais próximos, um ponto de luz ultrabrilhante aparece e fica estático por alguns segundos. Aos poucos o ponto se alarga e brilha ainda mais chegando a incomodar o olhar direto. O Sol nasce, meio ovalado de um branco puro intenso. A medida que o disco sobe, o céu vai mudando de cor, as nuvens tornam-se brancas e uma espécie de névoa esbranquiçada se forma. É dia, Gabriel. Suspiro leve de bebe, e um novo aconchego entre meu pescoço. Dorme.

Bocejo

Bocejo

As coisas que eu realmente percebo e paro para realmente perceber atualmente são incríveis. Por vezes, só de ficar com ele no colo, em sua posição favorita que é de barriga no meu braço enquanto ando mostrando as coisa pela sala, fico maravilhado só de pensar o que esta acontecendo dentro daquela cabecinha de cabelos ralos e compridos. Bilhões de sinais e novos caminhos neuronais, uma explosão de química e eletricidade que não cessa, tudo isso para aprender a ver e  a ouvir. Aprender a sentir o mundo ao redor, entende-lo e disso criar um sistema próprio de como lidar com o mundo.Unhas que crescem, o peso que aumenta, o umbigo que cai, o coco que sai, o leite que entra, a dor de colica, o cabelo que nasce, o espirro, o susto, o bocejo, a risada em mímica tudo é vida e ciência e espirito e maravilhamento.

Em inglês há essa palavra  que resume muito que sinto:  Awe ( /ô/ ), sentimento de respeitosa reverencia junto com maravilhamento ou medo. Um espanto de só uma silaba estupefata e sem fôlego.Vivo em awe  de ver e ouvir nos dias de hoje. De ver a vida acontecer na minha frente e eu tendo a oportunidade de participar nisso. Ajudando a cuidar, dar de comer, limpar, ninar, mimar, amar.

Dia desses fui confrontado com uma pergunta que basicamente pedia para escolher se, podendo voltar no tempo, você reviveria momentos bons ou tentaria consertar erros do passado. Ansioso e meticuloso, disse que consertar e deixar tudo perfeito. Mas talvez consertasse de um jeito que Gabriel não viria a existir, ou não exatamente ele, e isso hoje é incabível. Pensando um pouco mais e principalmente depois desse nascer do sol vi que o legal seria reviver o que foi um momento de felicidade perdido. Nos humanos adoramos uma nostalgia e todo esse processo de revistar o passado. Não a toa grandes filmes e livros foram escritos sobre isso e físicos chegam a fazer apostas no estilo de físicos em se a viagem no tempo existe ou não. E passado para mim e para a dinâmica de Gabriel é algo que dá saudades de 40 dias atras. Maternidade, pulmão e boca pequenos ainda, Gabriel quando chorava, não chorava de verdade . Numa voz bem baixa mas com o alerta de um bebe que demanda algo, parecia chamar pela Inês. Inêes! Inêeeees! E era esse o choro. Que saudade disso! Não tive presença de registrar isso, que coisa! Se pudesse voltava o tempo, “fotogravava” com minha câmera em HD e revivia esse momento de novo (ou consertava o erro de não ter registrado?). Isso tem sido legal como o Gabriel. A vontade de registrsar em pixels é menor que a vontade de presenciar e viver um primeiro sorriso, outro banho, uma cafungada no cangote ou uma massagem shantala (ele adora isso, e adora também, que papai aqui cante Nessun Dorma quando acorda… sério! A risada na cara do Gabriel é a contribuição para o Artista.

Eu aprendo todo o dia. Sou forçado a aprender. A cantar, a lembrar, a perceber o que é cólica e o que é manha. Para isso é fácil, mas me propus todo o dia a contar a ele um fato de ciencias, arte ou historia ou filosofia. Um por dia. Me achava inteligente? Dez em arrogância e zero em botânica. Mas isso da vontade de aprender, ler sobre as dicotiledôneas e a reforma da Igreja na Europa. Da vontade, só para poder falar com o Gabriel. Papais: tenham vontade! De conversar sem medo do ridículo com seu filho, de cantar, narrar partidas de futebol, de dar banho, de fazer caretas, de trocar fraldas e ajudar na amamentação. Alias essa  parte de ajudar a mãe a alimentar o filho é  o mais próximo que você vai chegar a se divertir com peitos durante uns 40 dias. Ao invés de uma mamadeira, use uma sonda. Você pode ajudar a companheira com pouco leite a complementar direto no peito (ou um companheiro que não nasceu para produzir leite a chegada de um filho talvez adotado) , pois a sonda possuem cânulas que ficam presas por um microporo a pele, e desembocam no bico do seio. Ou voce pode fazer a cânula grudar no seu dedo mindinho e alimentar seu moleque desse jeito! Funciona! Não temam se lhe dizem que ” homem não sabe fazer nada, deixa que a avó cuida”. Sabe sim, meu pobre macho adulto no comando! Vá lá e faça e divirta-se¡ Isso a gente aprende fazendo e vê que é muito bom. Todos tem uma boa dica, ou um jeito que tem que ser feito, ou o pior: “vocês não deviam fazer isso” . Acredite, essas frases acontecem o tempo todo e diria que voce usa talvez uns 30% do que te dizem. Mas não vire os olhos ou perca a paciência. No mínimo, são pessoas interessadas na sua criança e que querem participar, participar da sua felicidade. Divida-a! Seja generoso nisso!

Tudo isso, para dizer caríssimos: ter um filho é a melhor coisa do mundo. Você aprende, você divide, você se torna mais humano e menos arrogante. Você se torna tudo aquilo que você um dia sonhou que te faria um homem. Vai, que maravilhosos nasceres de sol te aguardam. Sem segredo nenhum, é hora de acordar.

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