Vinte Um de Maio de Dois Mil e Catorze da Era Cristã

Gabriel, você respirou pela primeira com seus próprios pulmões as vinte horas e treze minutos de uma noite linda de outono. A cidade era um caos fora do centro cirúrgico, mas ninguém parecia ligar muito. Sentado em uma cadeira, segurando o braço da sua mãe tive o momento único de ver você sair, assim por uma cesárea sem eventos, de onde estava há mais de nove meses. Chegou chorando pouco, um oi leve e calmo, aquele de pulmão ardido que é usado pela primeira vez. Roxo feito uma beringela. Quente, pele macia, e saco grande. Você ainda sob a luz do campo cirúrgico é uma memória que se eu não me esforço, foge. Foge porque tinha tanta coisa acontecendo aqui dentro de mim, e o obvio a minha frente ficou quase imensurável. Fora a responsabilidade de tirar a foto mais importante da minha vida. Até agora foram 324 fotos importantes da minha vida, e você tem 17 horas de vida. Horas essas que você passou dormindo, sono pesado, delicioso. Mas a memória do parto. Fomos divididos, sua mãe e eu, em dois andares. Ela ia com suas contrações para o centro cirúrgico e eu para o não menos importante vestiário dos funcionários. Aventais azuis, touca, capinha para os sapatos, uma Nikon debaixo do braço e lá vou eu para ver você chegar. Um caminho labiríntico separava o vestiário das salas. Chego no mesmo instante que sua mãe na maca. Ela vai se preparando enquanto tento parecer calmo na antessala, já todo vestido. A camisa ficou pequena.   Já sentado ao lado da sua mãe, ela meio grogue da anestesia, segurando sua mão no resto de força que ela tinha, bem quieto para não atrapalhar. Tinha uma máscara cirúrgica sobre o nariz e boca. O calor da respiração alta e curta atrapalha  e me lembra para eu tentar respira mais longo, mais calmo. Claro que sim.

Image

É tudo bem rápido quando você sai. E dai meu problema com a memória desse instante. A visão virou um túnel, onde eu só conseguia olhar pra seu rosto, meio roxo, lindo, mas era só rosto. Isso dura frações de segundo que parecem não se alongar, mas eternizar o tempo. Faz sentido? Ali, nesse seu rosto, naquele funil de cor e luz que terminava seu rosto, era um momento eterno, mas fugaz. Louco, né? Rápido sinto um toque no ombro:

” Levanta, pode tirar a foto”

E você sai inteiro, ja a plenos pulmões. Cordão umbilical cortado. Alguém te embrulha numa toalha de não-tecido amarela, te aconchegam perto do rosto de sua mãe. Ela sorri um sorriso grogue e doce, e você chora. Cabe então a mim agora, me desvencilhar da câmera, coloca-lo no braço, meio desajeitado com o não-tecido amarelo, e suando e bafando atras da mascara cirúrgica, te apresentar para uma plateia familiar do lado de fora de um vidro leitoso. Estamos bem, quentes, roxinhos, felizes e barulhentos.

Mas isso foi só o de fora. Aqui dentro era calmo, um aperto de ansiedade no peito que ia se transformando em taquicardia e daí felicidade. Extase. Seu nascimento, Gabriel, foi o mais próximo que cheguei de uma experiência espiritual. Spiritum Liberum. Mas isso é a minha experiência. Você, talvez, nunca escreva um blog relatando a sua experiência de ter saído e conhecido sua mãe e ter sido carregado nos braços do seu pai. Se foi bom, se foi ruim. Se gostou das vozes das figuras nas salas. Se te carregaram direito no não-tecido amarelo. Mas não faz mal, tudo tem sido tão transcendental nessas primeiras horas, que seu silêncio ja basta. Esta calmo, é meu filho e eu sou seu pai . E prometo ser o melhor carregador de Gabriel que você já teve noticia, ok?

Em todos os tecidos dessa vida.

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