O dia que o Skylab caiu lá em casa

Image

Eu sempre fui um sujeito meio dramático. Quando eu tinha quatro anos meu maior medo era que o Skylab caísse. Colocado em uma órbita muito baixa, a estação científica teve um fim prematuro em 1979 quando reentrou na atmosfera, se desfazendo em pedaços em algum lugar da Australia. Pelo menos a história foi assim. Na minha cabeça, ele ia cair na casa da minha avó, ali no quintal, arrasando em chamas a arvore gigantesca e deixando uma cratera no chão de cimento. Não haveria tempo para nada. Era o fim. Lembro com pouca clareza, que carregava debaixo do braço um recorte de jornal com uma foto da estação espacial. Andava com o recorte debaixo do braço e explicava toda a situação em detalhes para qualquer um que quisesse saber do apocalipse inevitável que ia para sempre mudar nossas vidas. Eu vejo um pequeno e amedrontado  garotinho de 4 anos, andando em um macacão de veludo vermelho, botas ortopédicas típicas, uma cabelo preto e despenteado preparado para a queda do Skylab. Não podia ler e talvez estivesse sendo ensinado a ir ao banheiro, mas o Skylab era muito mais importante. Muito mais dramático.

Não posso negar que o drama já me rendeu umas boas poesias adolescentes, uns medos infundados que viraram histórias assustadoras, alguns corações partidos que demoraram mais para cicatrizar do que deveriam, e umas boas horas de analise. Trinta e quatro anos depois tento ao máximo enxugar um pouco o roteiro e deixa-lo mais pratico para se viver.  A internet é um prato cheio para um ansioso hipocondríaco e melodramático como eu. Videos de partos que não dão tão certo, doenças da infância, minha identidade genética ruim, o umbigo que não cicatriza. Mas isso é uma coisa boa de se ser dramático e vigilante: vivo todos eles, faço todo o roteiro na minha cabeça, percebo que o filme ridículo e, espero, quando chegar a hora não vou transmitir esse medo a ele.   Meus medos em relação ao filho procuro deixar aonde devem ficar: no concreto; no plano de saúde, no termômetro de ouvido que pedi para comprar no estrangeiro, no estoque de fraldas, na poupança forçada do fim de mês. Mas e ele?

Que medos terá? Qual a intensidade do medo? Serei capaz de dizer que “não há nenhum fantasma no armário”. Eu conheço cada dia mais os meus, dos pequenos aos grandes. Com alguns faço drama, com outros deixo o medo fluir, e com os que sobram dou uma bela risada, Se há algo que simplesmente não me da medo é a aventura de criar uma criança que está para chegar. Fica tudo simples (eu sei que não vai ser), mas para a minha cabeça de fantasia, fica simples sim. É quase um: desse medo eu dou conta. Pode vir! E é engraçado ver como os medos mudam no casal. A companheira ( que agora ronca suave ao meu lado, já com a barriga meio sem posição para dormir) tem os dela. Conversamos sobre eles e vemos que os nossos medos se anulam. Ela tem medo de ficar sem jeito de pegar o bebe se for muito pequenino. Eu não. Eu tenho medo de não ter dinheiro para um plano de saúde. Ela não. Essa é uma das coisas boas de se ter um filho a dois. O medo se neutraliza. O amor se multiplica. E com ele a segurança, a felicidade, e a calma.

Hoje estava lendo como devemos estar atentos aos nossos medos, defeitos, neuroses, dramas. Como um jardim está sujeito a ervas daninhas, temos que arrancar elas o mais rápido possível. É um trabalho diário e necessário quando se tem uma mente ansiosa e fértil como a minha. Se não cuido, fica pouco espaço para aproveitar as flores. A calma. Ter a percepção  que hoje exige gente a minha volta que realmente se importa. E como também fizeram em 1979, me reasseguram que o Skylab não vai cair sobre a minha cabeça. Com 4 anos não tinha problemas exatamente reais. Não podia entender a situação do país, por exemplo, e a ditadura militar que havia. Hoje eu tenho; o condomínio, a saúde, a situação do país onde o filho vai crescer, o ajudar alguém que carrega na barriga uma nova pessoa. Mas isso não é problema, É um presente que eu não sabia que precisava ter, apesar de ter sido avisado que deveria ter.

Filho, tenha medos, só não os transforme em monstros muito grandes. Ou transforme num pequeno, e exercite a imaginação dramática. Me levou até aqui. Só peço: quando ainda criança, diga a todos seus medos e dramas. Alguém pode simplesmente lhe dizer o mais importante: vai ficar tudo bem. Eu te protejo.

Mas falando nisso, o apocalipse zumbi pode acontecer. Sério. Tenho até aqui um artigo sobre um fungo que atinge a população de formigas. e domina seus cérebros……..

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s