O Quarto do Filho

Peanut_cloth_022014O quarto do filho não é o quarto do filho. É o lugar onde hoje jogamos tudo o que não conseguimos encaixar ou esconder nas gavetas.  Sim claro, tem já um carrinho de bebê e uma cadeirinha, e o detalhe da pintura azul até a metade da parede na esperança de tornar-se uma grande lousa, não deu muito certo no quesito fofurice, mas que não deixa dúvidas do que está para ocorrer lá. No armário, longe do primeiro olhar, um pacote de fraldas solitário, roupas pouco práticas mas muito simpáticas, como o macacão de urso e alguns desses acessórios de bebê completamente supérfluos e por isso mesmo indispensáveis: babador dado pela tia escrito “Pequeno Chefinho” na fonte famosa, uma chupeta com um bigode estiloso desenhado, um canguru para carregar o moleque a tiracolo, mordedor.

Hoje foi dia de mudança e de deixar o quarto ainda menos parecendo com o quarto de bebê. Um gabinete de computador e seus fios, malas, caixas, roupas que não me servem, uma bicicleta que já viu dias melhores, fios, conectares e cabos de todas as especificações e terminações possíveis. Muitos deles. Aliás é meio assustador eu e meus fios… Isso e mais o que já estava lá: duas malas, um cabide de roupas, uma cadeira de escritório, mala, mais uma, e um estado de desordem que parece um tanto sem solução. Falar em  entropia é suave, acima de tudo quando se espera que o quarto entre em ordem novamente. Não sozinho. Certo esforço terá que ocorrer para que ele fique habitável. Habitável, ainda não o quarto do filho.

O quarto tem sua porta diretamente para o banheiro, de onde, lavando as mãos, se enxerga o quarto e a janela principal. Uma luz âmbar entra na janela por conta de um filme alaranjado que protege o vidro e ilumina a bagunça em toda a sua desordem. Ali, no banheiro,  lavando as mãos, tentei vislumbrar o quarto em ordem, arrumado com seus pertences e móveis de direito, e ocupado por alguém que ainda não conheço mas sinto uma saudade dessas de nó de garganta.  Não consegui imaginar o berço no lugar do entulho tecnológico e as malas. Colocar uma cômoda e uma cadeira de balanço aonde fica a bicicleta e uma saco de sapatos foi impossível. Mas realizar uma figura vivendo naquele espaço branco-azul foi fácil. Ali, quieto ou chorando, gargalhando ou mexendo nas fraldas sujas,  pintando a parede, cutucando o nariz, ardendo em febre ou tomando um suco. Ali é o quarto dele, e por extensão o quarto que me fez sentir ainda mais presente nessa casa. A casa que será da mãe, e do filho, e desse pai meio torto.

Fechei a torneira rapidamente e entrei no quarto. Cheira um pouco a tinta ainda. Não é que cada vez mais me sinto mais pai. Longe disso. O que me toma os olhos e a garganta é isso de saber que um camarada novo vai dividir esses espaços desorganizados e perfeitos conosco. Para o resto da vida. E por mais que ele suje as paredes azuis com as fraldas ou rabisque desenhos com giz, sempre será amado. Sujar paredes é da natureza dele.

O Quarto até hoje era um espaço concreto e que preciosa ser arrumado e minimamente cuidado.

Nunca tinha dado do conta do espaço gigante, confortável,e doce e já arrumado que tenho dentro de mim.

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