Duas Linhas Azuis

E então teve esse dia que a companheira de aventuras ao meu lado, sai do banheiro do quarto de um hotel e diz: ” Então… acho que tem essa segunda linha meio azul aqui…. mas tá bem fraca, não sei. ”

Isso foi em terras estrangeiras. Os testes de gravidez por lá vem com três dessas coisinhas onde você (mulher) colhe sua urina e espera  por duas linhas azuis ou uma só. Duas, no caso daquele teste, indicam níveis  mais altos de hCG, gonadotrofina corionica humana, que apontam para uma gravidez. Os testes podem dar falsos negativos, mas os falsos positivos são mais raros ou podem indicar algum outro problema que deve ser investigado. E a ciência é essa.

Mas o fator humano de incredulidade faz você testar nas três coisinhas. Meio azul? Meio fraca? Amanha a gente repete, né? E repete mesmo. Mas nas doze ou vinte e quatro horas até você atinar cientificamente para o obvio, alguma coisa mudou. Em mim pelo menos. Mudou sim. Quando essa adorável pessoal saiu do banheiro pedindo que eu ajudasse na segunda linha azul meio fraca, uma mola, um circuito, um fusível, um click fez na cabeça e acalmou: a vida vai ser diferente agora e isso é bom. Parecia que os problemas ficaram diferentes, menores, que tudo tinha solução, que tudo tinha uma explicação. Que tudo estava resolvido enfim.  E foi libertador e doce. E elucidador também.

Sejamos sinceros: antes do teste de gravidez, eu sabia já fazer contas. Nunca fui exemplar em matemática, mas contar certos dias do mês e fazer uma pequena adição dá. E como um menino que se acha cientista, ver a querida ao lado entrando em cinemas, por exemplo, e em minutos de não importa o que estivesse passando, fechar os olhos e se colocar a dormir, umas campainhas soam e te dizem que algo esta diferente”. Bem diferente. Azul bem forte.

No dia do banheiro ganhei essas entradas para uma das mais importantes casas de Jazz de Nova York, a Blue Note. E no caminho de metro e a pé até lá, fui meio flanando e pensando como tudo é suave e calmo, como tudo era bom. Terence Blanchard em Nova Iorque! E eu ia ouvir o cara! E eu era co-responsável por um outro tipo de nota azul. Na fila para entrar chegou um senhor mirrado, uma boina de lã colocada ao contrario protegendo a cabeça da noite de 18 graus, vestindo um surrado terno de tweed, se dizendo um grande baterista de jazz e tudo mais, e que eu precisava ouvir a música dele. Quarenta dólares pelo CD. Ofereci 20, e ele aceitou com um sorriso. Entregou um case de CD…vazio. Disse a ele que estava vazio e ele prontamente sacou de um bolso do terno o CD pedindo desculpas. Música boa mesmo. Só fui escutar quando retornei a terras tupiniquins mas se era ele na bateria, que som!  Mas tenho que dizer que antes no caminho tinha parado numa farmácia e comprado um maço de Marlboros mentolados. Cigarros nervosos.  Fumei, coisa que há meses não fazia, e rápido. Fiquei com a cabeça meio alta, meio besta. Ok, mas era só isso. O resto era felicidade mesmo.

E lá estavamos, ouvindo Gary Burton no xilofone e Terence Blanchard no trompete. Uma “blue note” no Jazz é essa nota, som, fora da escala que fica um tanto dissonante, mas que diz que você esta ouvindo jazz, e que isso é bem legal. Essa coisa que não deveria estar lá, mas por estar faz da experiência  algo especial. Faz sentir-se estranho, mas bem.

Não me senti pai naquela noite, apenas me senti bem.

Isso tudo foi há sete meses agora,  e tenho certeza absoluta que as notas e linhas eram claramente azuis.

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