Da Quebra

Hoje, Gabriel, quebrei. Feito máquina daquelas que a gente vê no Tempos Modernos do Chaplin, uma mola saiu, bateu numa engrenagem e a coisa toda pifou. Parou de gerar energia

Quebrei pelo meu medo de mudar e pelo que machuquei no passado.

E daí chego nessa casa e você de pijamas pula em minhas costas e faz ver que a máquina pode ser consertada. Engrenagem de volta, mola de volta. Faltou um parafuso. Deve ser da minha cabeça, mas deixa para la.

Sempre me falam para radiar e irradiar positividade, assertividade, energia boa. A gente tenta, a gente vai, mas tem horas que a gente quebra. Um dia, meu filho, sinto dizer, você também vai quebrar. E que quebre mesmo. E que encare a dor da perda, da ausência, do erro, do medo, da navalhada desnecessessária, do joelho ralado, da falta de mertiolate ou da simples noção que somos humanos e erramos. E que encare de cara limpa. Que faça doer. Que faça crescer e modificar aquilo que pode em você.

Pais quebram mais do que pensa. E sei que ja me viu quebrar algumas vezes. Tente se lembrar disso se um dia for ter um filho. Pais quebram, e isso acontece. Não somos superhumanos. Hoje você é um superhumano para mim, mas um dia irá perder esses seus superpoderes ou entender que nunca os teve. Apesar de poder jurar que é capaz de pular em minhas costas e dar um mortal na cama caindo de pé. Hoje você consegue. O dia que não conseguir, não se desespere.

Pais são mortais. No sentido de finitude da palavra. Mas espero que essa finitude dure para sempre. A gente é poeira de estrelas e vai voltar a ser. Conservação de energia.

Lembre sempre que luz é onda e partícula, e  essas particulas são chamadas fótons. E que cada uma dessas particulas que um dia bateram em minha cara claras o bastante para iluminar e fazer uma imagem em seu olho, se transformaram em energia depois em seu cerebro. E essa energia fez conexões intensas dentro das sinapses que se fortalecem a cada dia que me vê. Formam memoria. Memória então é energia. Que você se lembre do pai quebrado e do pai que se conserta. E que segue. Com energia.

Pai arrumado, Gabriel, graças a sua Graça. A algo maior e ainda mais energético. De o nome que quiser um dia. Mas entenda, que energia hoje vejo em você, ao acordar mal humorado, a pedir insistentemente para ir ao show do Discovery Dinossaur Experience (não, eu não vou te levar essa segunda vez, É muito ruim aquilo), ou subir nas prateleiras da dispensa da cozinha atras de Yakult as 10 da noite e odiar. Agora. Tô vendo isso. Energia.

Conserve ela, mesmo que vá contra as leis da termodinâmica.

Conserte o que pode e siga. Você me ajuda a ir em frente.

 

Parte do texto claramente inspirada em

Você vai querer que um físico fale em seu funeral

 

 

 

 

 

 

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Da Ausência

Você vai fazer cinco anos agora. Cinco.  Quatro anos e 9 meses que não escrevo uma linha. Não foi por preguiça, por falta de assunto, foi por mim, que se perdeu um pouco. Mas continuava e continuo aqui. Você falou as primeiras palavras que já nem lembro quais eram. Deu seus primeiros passos, e lembro de ver você segurando a mão de meu pai, lutando contra a Lisa (uma Pastor de Shetland) que queria arrancar teu brinquedo, mas andando. E ia, decidido como ainda é.  O coração pulou ali. Não era mais o bebê de 90 dias.

Deus! 90 dias foram os melhores da minha vida. Não há o que comparar. Andava uns 5 cm mais alto, falava rindo, serotonina jorrava do meu cerebro. Porque parei de escrever para você, meu filho? Tantas respostas para essa pergunta. Mais ainda, porque não parei de te amar? Moleque que não para, vê Tartarugas Ninja e quer fazer Ninjutsu. Você foi a uma aula de Kung Fu. Ficou no colo; as vezes levantava e repetia os gestos, mas de longe. Esse é você.

Você gostava de dinossauros aos 2 ou 3 anos. Sabia todos os nomes. Sabia todas as Eras e Periodos em que viveram. Eu me enchia de orgulho e admiração. E via. E estava lá, te acompanhando no Ordoviciano onde não existia oxigenio e só monstros marinhos. Estava la com você, por favor se lembre disso e quando for mais velho, diga: eu lembro de você assistindo comigo Caminhando com Dinossauros, só para que eu tenha certeza que estava ali.

Como alguém começa a ficar ausente? Com a cabeça no mundo da lua? Vi realmente teus dentes nascerem? Vi sim. Vi você aprender a se trocar sozinho? Vi sim. Vi você ir a escola pela primeira vez, vi você ter sua fase de “orelhas”; não podia ver a orelha de alguém que logo se pendurava nela. Um token seguro. Na minha. Na de sua mãe. Vi você comer rucula crua e hoje vira a cara para qualquer coisa que não seja arroz, feijão e bife. E um peixinho e franguinho de lá em vez. Vi você no parque da Agua Branca com admiração e medo das galinhas. Foi lá desde que nasceu e continua indo. E com a mesma admiração e medo das galinhas e do pavão. Vi você fazer piruetas. Amenizei sua primeira, segunda e   décima quinta febres. Vi você começar a ter medo de escuro, de aranhas e leões gigantes. Vi você com cocô até a cabeça depois de uma viagem onde as fraldas não aguentaram.

E porque não escrevi?

Não tem resposta facil, meu amor. O mundo foi mudando, você foi mudando, eu escorreguei, eu me atrapalhei. Ninguém tem culpa de um cronista de meia tigela ter simplesmente parado um blog sobre seu filho.

Seu filho.

Me diz Gabriel, quando tiver mais idade que tipo de pai eu fui para você? Que tipo de exemplos te dei? O que ajudei você a se tornar?

Você ainda me ama?

O papai que abre a porta da casa e ve você na maioria das vezes vir sorrindo e correndo dizendo papai chegou. Outras você ta é vendo Luccas Neto que sei!

Dessa casa. Como ela se transformou mas parece que eu não mudei. Como você cresceu e parece que eu não cresci.  Como eu queria ter escrito tudo isso, como eu queria ter tomado aquele rumo ao inves desse, como queria ter provado aquela bebida em vez dessa, como queria ter comido dadinho de tapioca ao inves de kibe. Como queria ter escrito mais. Mas de certame tem você. Meu norte, meu sul, meu oeste e leste. Você merece mais um pai melhor. Ele virá?

Gabriel, tem vezes que te coloco na cama, sob a luz verde do nosso abajur de dinossauro, afago leve seus cabelos lisos, beijo sua tempora e há essa mistura de sentimento de ” onde estava com a cabeça??” ou ” Você é só carinho em minha vida”. Eu tento dar ao maximo, tento estar presente ao máximo, tento te agarrar ao máximo, tento e jogar cada vez mais alto para cair na cama, tento brincar como o Destruidor cada vez mais no papel certo. Tento

Tenho conseguido?

A vida nunca fica a mesma, e quando escrevo agora ela certamente não é a mesma de 4 anos e 9 meses atrás.  Nunca sonhei em te dar broncas, mas o papel do pai as vezes sai natural e a bronca vem. E não me sinto mal. Me sinto Pai. Torto, mas pai.

Você mudou mais do que eu e te admiro por isso. Enfrenta com coragem os desafios, não leva desaforo par casa apesar do tamanho, é aventureiro, luta com criaturas miticas e cria desenho de monstros. Só olho. Não escrevo. Devia escrever mais.

Sera que escrevendo sai essa coisa do peito?

Escrever parece que parou, fiquei sem assunto. Parei. So fiquei observando o tempo passar e ele passou. Não consigo pegar o tempo. A gente recomeça. A gente tenta de novo. A gente tem esperança que tudo mude ou algo volte. A gente tem esperança de ser feliz. Eu tenho a esperança que dentro dessa cabecinha coberta por uma vasta cabeleira lisa castanha bem clara, seja felicidade pura. Quero beber dessa fonte.

Gabriel gosta de pão com Nutella. Lanchinho da noite (não me repreendam). Gabriel gosta de andar fantasiado. Gabriel gosta de ganhar presentes e cortar o cabelo. Gabriel gosta de festas. E o pai do Gabriel gosta do Gabriel. O resto, de repente, fica vazio. Mas um vazio que se preenche, certo Gabielo?

Tenho 1,62cm. Sempre achei que pais deveriam ser altos. O meu é mais alto do que eu, o que não quer dizer muito porque quase todo mundo é maior que eu. Parece que não possso ser pai exemplo por isso. Mas dai lembro das minhas mancadas e acertos. Oxala esteja alimentando ele dos meus acertos! Das minhas pequenas coragens, pois tenho mais medo que coragem. Bem, isso não falta nele. Da minha pequena assertividade e positividade, porque as vezes é dificil transmitir isso.

Lembro do dia que cheguei chorando em casa ou quase chorando. – Isso é lagrima papai? – Não, é que meu olho ta meio ruim. Ele limpou minhas lagrimas e de repente começamos a gargalhar sem porque até cair no chão. Ele: – Isso é bom. A gente chora mas depois da gargalhada. Extase. Epifania. Arrebatamento.

Capacidade de mudança. Voltar a escrever. Por para fora e ainda mais narrar a aventura de ser pai da segunda criatura mais amorosa e linda da face da Terra. Digo segunda porque não conheço a primeira e tenho modéstia.

Eu vou ser seu pai para sempre. E você meu filho, espero que deixe eu ser seu pai para sempre. Esse pai torto, que se corrige, que pede desculpas em demasia, mas que tem seus acertos. Espero estar acertando com você. Um pai que dê exemplos fazendo-os

A gente ainda vai falar do seu dente podre, da sua cara quando solta pum, das aventuras subaquaticas na banheira, dos passeios, das idas e vindas, da sua doçura quando ainda pega na minha orelha quando quer se aconchegar.

Pegue na minha orelha sempre, tá?

 

90 dias

24/08/2014 24/08/2014

    Há tres meses atras eu era outra pessoa. Um pouco mais calmo do que o título do blog sugeria, mais de bem com a  vida,  ansioso com o lidar de um filho que chegava, mais tolerante. Feliz. Isso mudou ainda mais e assumiu proporções  que só  entendi de fato no domingo passado quando trocava o Gabriel após uma visita a avó. O sorriso já franco de      gengiva  sem dentes, o pouco cabelo fino e ralo, os olhos redondos e claros, a expressão de felicidade me fizeram desabar  em    prantos quando entendi o que estava ali na minha frente. Se há três meses ficava apaixonado com o fato daquela  coisinha  simplesmente existir, num crescendo espetacular toda aquela felicidade e boa ventura transformaram-se numa  especie  de epifania. Um laço de um Amor diverso de tudo que havia experiementado até então me fez perceber o quanto  eu vou  estar ligado a essa criatura para o resto da minha vida. O fato que ele vai crescer, perder roupas e dentes, ganhar  quilos e  centímetros, chorar, rir, amar, ralar os joelhos, fazer perguntas, fazer mais cocô, dar cambalhotas, ficar bravo,  viver,  tudo vira sublime, história da Vida, como um excelente episódio de Cosmos explicando o maravilhamento  humano   frente ao existir. O que mais soava na cabeça naquele minuto era: Eu quero viver até os 138 anos para ver você,  Gabriel,  um velhinho aos 100 anos de orelhas pequeninas e com o mesmo sorriso de gengivas. Vai ser engraçado, a gente  pode  revezar quem vai trocar as fraldas de quem. Não se esqueça que por força da idade, eu vou ter mais experiência.

 Tudo muda quando se tem um filho, era  a frase que eu mais ouvia. E durante um tempo entendi, talvez erroneamente,  como se as pessoas dissessem para aproveitar a vida enquanto ainda tinha uma, o sono, o casal, a grana, por que depois  acaba tudo. Você não tem  mais vida e só vai viver em função da cria. Pois é verdade sim,  vivemos em função do Gabriel,  mas que vida fantasticamente boa de danar! E sobra sono, grana, casal… Esse se transforma. Se num momento da vida  cheguei a conclusão de ter a Tania ao meu lado e que um teria que aguentar o outro até o fim da vida, hoje essa ligação  tomou ainda outro tom. O melhor projeto que poderia elaborar a dois,  com ela. Há muita gratidão envolvida aqui. Há o amor e o Amor transformado.  E isso é algo que há pouco tempo atrás  eu  achava que nunca mais ia sentir na vida. Eu tinha uma idéia que talvez mudasse um pouco, mas não desse jeito.

E você começa a perceber a felicidade e o amor nos outros, e como isso também se transforma com a convivência. O amor dos avós com o Gabriel é algo lindo de se ver. E dos tios, amigos, até o estranho na rua que pergunta: mas tão durinho! só três meses? Que fofo! Parabéns! É coisa maravilhosa entender isso, que é  novo para mim. Já tive, claro, minhas paixões adolescentes, os amores platônicos, os carnais, os “pra sempre”, amor em relação aos pais que pode parecer apenas memoria de infância, mas que hoje  é muito presente e vivo, amor de irmã, amor de família e amigos. Mas amar a um filho é novo, e digo, gigantesco. A coisa fácil seria dizer que amo o Gabriel mais do que todo mundo que já amei ou amo, ainda que só um pouquinho para evitar ciumes, mas seria errado. É um Amor diferente, é como se eu não tivesse escolha. Domingo passado senti isso. Não tenho escolha a não ser amar. Mesmo que eu tivesse, seria muito fácil escolher.

E nem me importo se for só da minha parte. Difícil, mas vai que um dia ele diz: “Quem, esse cara? Já me quase me afogou umas duas vezes na banheira, e ainda fica pingando uns troços no meu nariz, segundo ele, para “eu respirar melhor” “. Não me importo. É sem escolha. É grande demais para um sujeito normal, para mim, é a viagem mais sublime que jamais fiz na vida. Viagem sem grandes bagagens, que a gente aprende  mais do que ensina. Ver voisas, ouvir, tocar, não desligar de outra pessoa, rir sem para e ver no espelho esse sorriso. Ver um pouco de mim no Gabriel e antever o que pode ser seu futuro sem ficar ansioso.

De pai ansioso sobrou um pouco, claro. De tudo resta um pouco, como diria o poeta. Mas nunca estive tão em paz com minha ansiedade como estou nesses últimos três meses. Já comemorei outros três meses para outros fatos da minha vida, mas nunca entendi tão bem a dimensão do que são 90 dias. Passa rápido quando a gente se diverte. Tudo mudou sim. Que bom!

p.s.: acho que o olhar continua da mesma cumplicidade …

25/05/2014 25/05/2014

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nessun Dorma

E mais um  Sol nasceu com Gabriel no colo. Dormia relaxado, enovelado em si mesmo feito um tatu bola  após a primeira mamada do horário comercial, por volta das 6 da manhã. Eu de pé no meio de sala, de pijama e  olhos maravilhados, dividido entre pegar a câmera e registrar tudo no instagram ou acorda-lo para  “mostrar” o sol, decidi simplesmente assistir a algo que há décadas não fazia. Deixo  ele se aconchegar um pouco mais, ouvindo a respiração suave e cheia de barulhinhos que só bebes fazem, bumbum apoiado na minha mão, quase sentado, deixando o tronco contra o meu peito e a  cabeça encaixada um pouco abaixo do meu queixo. Tenho os olhos ainda meio embaçados de sono, mas que veem tudo. Moramos num andar alto, pode se ver a linha do horizonte acidentada do relevo de São Paulo cercada pela Mantiqueira e um mar de prédios. O céu minutos antes tem cores de ciano claro em sua parte mais alta e nuvens douradas  soltas e parecendo algodão doce. Mais próximo do horizonte uma linha rósea purpura (magenta mesmo) delineia e denuncia onde a coroa do sol vai despontar. Tudo parece estático nesses minutos. E bonito mesmo. Sobre um pico no horizonte, entre dois prédios um pouco mais altos e mais próximos, um ponto de luz ultrabrilhante aparece e fica estático por alguns segundos. Aos poucos o ponto se alarga e brilha ainda mais chegando a incomodar o olhar direto. O Sol nasce, meio ovalado de um branco puro intenso. A medida que o disco sobe, o céu vai mudando de cor, as nuvens tornam-se brancas e uma espécie de névoa esbranquiçada se forma. É dia, Gabriel. Suspiro leve de bebe, e um novo aconchego entre meu pescoço. Dorme.

Bocejo

Bocejo

As coisas que eu realmente percebo e paro para realmente perceber atualmente são incríveis. Por vezes, só de ficar com ele no colo, em sua posição favorita que é de barriga no meu braço enquanto ando mostrando as coisa pela sala, fico maravilhado só de pensar o que esta acontecendo dentro daquela cabecinha de cabelos ralos e compridos. Bilhões de sinais e novos caminhos neuronais, uma explosão de química e eletricidade que não cessa, tudo isso para aprender a ver e  a ouvir. Aprender a sentir o mundo ao redor, entende-lo e disso criar um sistema próprio de como lidar com o mundo.Unhas que crescem, o peso que aumenta, o umbigo que cai, o coco que sai, o leite que entra, a dor de colica, o cabelo que nasce, o espirro, o susto, o bocejo, a risada em mímica tudo é vida e ciência e espirito e maravilhamento.

Em inglês há essa palavra  que resume muito que sinto:  Awe ( /ô/ ), sentimento de respeitosa reverencia junto com maravilhamento ou medo. Um espanto de só uma silaba estupefata e sem fôlego.Vivo em awe  de ver e ouvir nos dias de hoje. De ver a vida acontecer na minha frente e eu tendo a oportunidade de participar nisso. Ajudando a cuidar, dar de comer, limpar, ninar, mimar, amar.

Dia desses fui confrontado com uma pergunta que basicamente pedia para escolher se, podendo voltar no tempo, você reviveria momentos bons ou tentaria consertar erros do passado. Ansioso e meticuloso, disse que consertar e deixar tudo perfeito. Mas talvez consertasse de um jeito que Gabriel não viria a existir, ou não exatamente ele, e isso hoje é incabível. Pensando um pouco mais e principalmente depois desse nascer do sol vi que o legal seria reviver o que foi um momento de felicidade perdido. Nos humanos adoramos uma nostalgia e todo esse processo de revistar o passado. Não a toa grandes filmes e livros foram escritos sobre isso e físicos chegam a fazer apostas no estilo de físicos em se a viagem no tempo existe ou não. E passado para mim e para a dinâmica de Gabriel é algo que dá saudades de 40 dias atras. Maternidade, pulmão e boca pequenos ainda, Gabriel quando chorava, não chorava de verdade . Numa voz bem baixa mas com o alerta de um bebe que demanda algo, parecia chamar pela Inês. Inêes! Inêeeees! E era esse o choro. Que saudade disso! Não tive presença de registrar isso, que coisa! Se pudesse voltava o tempo, “fotogravava” com minha câmera em HD e revivia esse momento de novo (ou consertava o erro de não ter registrado?). Isso tem sido legal como o Gabriel. A vontade de registrsar em pixels é menor que a vontade de presenciar e viver um primeiro sorriso, outro banho, uma cafungada no cangote ou uma massagem shantala (ele adora isso, e adora também, que papai aqui cante Nessun Dorma quando acorda… sério! A risada na cara do Gabriel é a contribuição para o Artista.

Eu aprendo todo o dia. Sou forçado a aprender. A cantar, a lembrar, a perceber o que é cólica e o que é manha. Para isso é fácil, mas me propus todo o dia a contar a ele um fato de ciencias, arte ou historia ou filosofia. Um por dia. Me achava inteligente? Dez em arrogância e zero em botânica. Mas isso da vontade de aprender, ler sobre as dicotiledôneas e a reforma da Igreja na Europa. Da vontade, só para poder falar com o Gabriel. Papais: tenham vontade! De conversar sem medo do ridículo com seu filho, de cantar, narrar partidas de futebol, de dar banho, de fazer caretas, de trocar fraldas e ajudar na amamentação. Alias essa  parte de ajudar a mãe a alimentar o filho é  o mais próximo que você vai chegar a se divertir com peitos durante uns 40 dias. Ao invés de uma mamadeira, use uma sonda. Você pode ajudar a companheira com pouco leite a complementar direto no peito (ou um companheiro que não nasceu para produzir leite a chegada de um filho talvez adotado) , pois a sonda possuem cânulas que ficam presas por um microporo a pele, e desembocam no bico do seio. Ou voce pode fazer a cânula grudar no seu dedo mindinho e alimentar seu moleque desse jeito! Funciona! Não temam se lhe dizem que ” homem não sabe fazer nada, deixa que a avó cuida”. Sabe sim, meu pobre macho adulto no comando! Vá lá e faça e divirta-se¡ Isso a gente aprende fazendo e vê que é muito bom. Todos tem uma boa dica, ou um jeito que tem que ser feito, ou o pior: “vocês não deviam fazer isso” . Acredite, essas frases acontecem o tempo todo e diria que voce usa talvez uns 30% do que te dizem. Mas não vire os olhos ou perca a paciência. No mínimo, são pessoas interessadas na sua criança e que querem participar, participar da sua felicidade. Divida-a! Seja generoso nisso!

Tudo isso, para dizer caríssimos: ter um filho é a melhor coisa do mundo. Você aprende, você divide, você se torna mais humano e menos arrogante. Você se torna tudo aquilo que você um dia sonhou que te faria um homem. Vai, que maravilhosos nasceres de sol te aguardam. Sem segredo nenhum, é hora de acordar.

Essa tal de Felicidade

Felicidade de 15 dais

Felicidade de 15 dias

 

Tem sido os  15 dias mais felizes da minha vida. Quase 17, mas quem esta contando? Quem está gravando, tirando fotos, escrevendo, publicando? Quem está notando? Pelo visto, bastante gente. A capacidade que um criança bebê tem em gerar e trazer felicidade é algo que até agora me impressiona. Impressiona mas não espanta. A gente quase se sente na obrigação de espalhar e repartir essa felicidade com o maior numero de pessoas possível, por isso essa enxurrada de fotos, vídeos, textos sobre algo que transcende o meu entendimento. Essa tentativa de capturar e entender o que vem a ser essa tal de felicidade é quase que incontrolável, e pode parecer como uma exposição extrema ou desnecessária de alguém com alguns dias de vida e que não pode falar : Presta atenção voces dois! Foto minha de umbigo de fora no  Imgur não! Um pouco de bom senso evita algumas coisas, mas espalhar felicidade me parece, hoje, a melhor caridade que ando fazendo. E o meu espalhar é escrever, fotografar, gravar. Repartir.

Uma coisa que me surpreendeu ontem a noite, quando perguntado ” Como vai o Gabriel?” ,  foi perceber que usei músculos da face que nem imaginava que existiam. A boca alarga, a testa aumenta, as narinas se afastam e o queixo sobe. Eu ando sorrindo mais e melhor e maior. Sorrir  é uma das formas mais fáceis de se repartir um sentimento tão inexplicável quanto grande. Nota-se no rosto pelo jeito e não me canso em ouvir como estou ” com o rosto melhor, mais leve”, apesar das horas de sono a menos. Como insone por natureza e pai ansioso, temia o fato de ficar noites sem dormir, cansado, olhos virados, dormindo em qualquer canto. Essa tal de felicidade não deixa isso acontecer? Entendam, estar nessa situação de cuidar de um ser 24 horas em ciclos de duas horas é tão difícil como falavam, mas ao mesmo tempo infinitamente fácil. E bom, por isso o sorriso. Eu não fico orgulhoso de mim mesmo, me achando que ganhei um presente, que cara sortido eu sou ou :Olha o que fiz! A boa ventura ultrapassa o ego; tem um eu ai que não precisa ser afagado por comentários ou “likes” em uma foto. O curtir vem antes da aceitação de alguém. Falar que a felicidade vem de dentro, que não é algo externo e que eu tive que me encontrar para experimentá-la, seria a essa altura hipocrisia da minha parte. A felicidade veio por parte de um ser que nasceu, que divide comigo e com a mãe momentos de intimidade extrema e irrestrita, que chora, se aninha, se acalma, chora de novo, pede, exige. Tudo externo e tudo gera felicidade. Talvez, num processo de alguns anos de cura interna, de maior contemplação, de sobriedade emocional, de aceitação dos outros e de mim mesmo, criou-se um ambiente aconchegante para a felicidade se instalar aqui dentro.  E ela tem ficado.

Há uma tentativa de compreender e abraçar de forma mais carinhosa o mundo, por mais gás lacrimogêneo que tenha no ar. Aproximar pessoas que se distanciaram com mais jeito e mais afago, tolerar mais o tempo e ser mais respeitoso com o fato que ele passa rápido, entender que há problemas pequenos e grandes e para cada um cabe uma solução, ficar tranquilo para poder passar calma que uma boquinha faminta demanda as 3 da manhã. Nada automático ou do dia para noite, um processo grande que levou ao que me tornei hoje.

Pode parecer que encontrei o nirvana ou virei um monge. Longe disso, nem preciso. Eu ainda tenho fome, vou ao banheiro, consumo combustível andando de carro e viajo em devaneios consumistes e faço posts  irritados no Facebook. Mas é tudo tão mais suave ou menor.

Essa tal felicidade não é irreal,  idealizada, sem substância, abstrata. Pesa três quilos, se mexe e é ruidosa, cheira a leite de peito, é quente e rosa, tem unhas frágeis e cabelos finos, olhos cinza escuro e de quando em vez sorri de volta. Pede para ser repartida.

A felicidade demanda atenção e carinho e é impossível ignorar um pedido desses.

Vinte Um de Maio de Dois Mil e Catorze da Era Cristã

Gabriel, você respirou pela primeira com seus próprios pulmões as vinte horas e treze minutos de uma noite linda de outono. A cidade era um caos fora do centro cirúrgico, mas ninguém parecia ligar muito. Sentado em uma cadeira, segurando o braço da sua mãe tive o momento único de ver você sair, assim por uma cesárea sem eventos, de onde estava há mais de nove meses. Chegou chorando pouco, um oi leve e calmo, aquele de pulmão ardido que é usado pela primeira vez. Roxo feito uma beringela. Quente, pele macia, e saco grande. Você ainda sob a luz do campo cirúrgico é uma memória que se eu não me esforço, foge. Foge porque tinha tanta coisa acontecendo aqui dentro de mim, e o obvio a minha frente ficou quase imensurável. Fora a responsabilidade de tirar a foto mais importante da minha vida. Até agora foram 324 fotos importantes da minha vida, e você tem 17 horas de vida. Horas essas que você passou dormindo, sono pesado, delicioso. Mas a memória do parto. Fomos divididos, sua mãe e eu, em dois andares. Ela ia com suas contrações para o centro cirúrgico e eu para o não menos importante vestiário dos funcionários. Aventais azuis, touca, capinha para os sapatos, uma Nikon debaixo do braço e lá vou eu para ver você chegar. Um caminho labiríntico separava o vestiário das salas. Chego no mesmo instante que sua mãe na maca. Ela vai se preparando enquanto tento parecer calmo na antessala, já todo vestido. A camisa ficou pequena.   Já sentado ao lado da sua mãe, ela meio grogue da anestesia, segurando sua mão no resto de força que ela tinha, bem quieto para não atrapalhar. Tinha uma máscara cirúrgica sobre o nariz e boca. O calor da respiração alta e curta atrapalha  e me lembra para eu tentar respira mais longo, mais calmo. Claro que sim.

Image

É tudo bem rápido quando você sai. E dai meu problema com a memória desse instante. A visão virou um túnel, onde eu só conseguia olhar pra seu rosto, meio roxo, lindo, mas era só rosto. Isso dura frações de segundo que parecem não se alongar, mas eternizar o tempo. Faz sentido? Ali, nesse seu rosto, naquele funil de cor e luz que terminava seu rosto, era um momento eterno, mas fugaz. Louco, né? Rápido sinto um toque no ombro:

” Levanta, pode tirar a foto”

E você sai inteiro, ja a plenos pulmões. Cordão umbilical cortado. Alguém te embrulha numa toalha de não-tecido amarela, te aconchegam perto do rosto de sua mãe. Ela sorri um sorriso grogue e doce, e você chora. Cabe então a mim agora, me desvencilhar da câmera, coloca-lo no braço, meio desajeitado com o não-tecido amarelo, e suando e bafando atras da mascara cirúrgica, te apresentar para uma plateia familiar do lado de fora de um vidro leitoso. Estamos bem, quentes, roxinhos, felizes e barulhentos.

Mas isso foi só o de fora. Aqui dentro era calmo, um aperto de ansiedade no peito que ia se transformando em taquicardia e daí felicidade. Extase. Seu nascimento, Gabriel, foi o mais próximo que cheguei de uma experiência espiritual. Spiritum Liberum. Mas isso é a minha experiência. Você, talvez, nunca escreva um blog relatando a sua experiência de ter saído e conhecido sua mãe e ter sido carregado nos braços do seu pai. Se foi bom, se foi ruim. Se gostou das vozes das figuras nas salas. Se te carregaram direito no não-tecido amarelo. Mas não faz mal, tudo tem sido tão transcendental nessas primeiras horas, que seu silêncio ja basta. Esta calmo, é meu filho e eu sou seu pai . E prometo ser o melhor carregador de Gabriel que você já teve noticia, ok?

Em todos os tecidos dessa vida.

Gigante

Anunciação, Leonardo DaVinci

Hoje foi um dia emocional. Mais do que as semanas anteriores, onde aprendo cada vez mais que sinto uma miríade grande de emoções, muitas das quais tenho pouco controle. Mas hoje foi mais. Mais ainda do que de alguns dias anteirores onde, cientificamente me afirmaram, que qualquer mamífero, independente do genero, é capaz de produzir leite para a cria em situações particulares. Descrente no começo, crendo depois de ler e pesquisar, e com uma pontinha  patológica de esperança de: ei! e se acontecer? Vai ser fenomenal! Há várias sensações que uma mãe (carregando um bebe) tem. Os chutes, os soluços, os outros chutes no fígado, os rodopios. Isso eu nunca vou saber efeitivamente o que é. Um tanto de sensibilidade e posso entender, mas sentir não. Meu grande riso autalmente é ver as caretas de sua mãe enquanto voce chuta. Entenda, não sou masoquista, mas que maravilha deve ser essa de ter um ser chutando dentro de voce? Eu gostaria de sentir isso sim. Entenda, não é algum tipo de ” inveja do utero ” ou qualquer projeção proto freudiana. É vontade pura e irrestrita de participar mais, de sentir mais.

Hoje fizemos mais um ultra-som e uma cardiotocograma.  Você é 3,125Kg dispostos em quase 40 cm de fofura e bico. O gigante que nasce dos pequerruchos. Quase uma historia de Game of  Thrones. Voce é gigante em amor. Voce é gigante em espaço na minha vida, folgado, me rouba a mulher e os cobertores, e eu nem me incomodo. Dou risada. Voce é gigante quando esperavamos um pequerrucho como nos dois. Voce é o gigante que ocupa o espaço mais confortável da alma.  Hoje tambem me lembrei de uma pessoa que certa vez disse ” você precisa ter um filho”. Sempre tomei essa frase como um ” precisa… precisa ser homem, precisa ser feliz, precisa mostrar  que…” . Não preciso nada. Eu na verdade quero. Mas voltando a querida pessoa que um dia me disse isso. – Você estava certa! Graças a você, Gabriel, que chuta as costelas de sua mãe, a mãe mais redonda e linda que jamais sonhei em dividir uma cama, eu percebi e fiz as pazes com vários demônios. Percebi o trabalho lindo, amoroso, fofo, paciente, este  trabalho de mestre que foi o dos meus pais a me criar. Fiz mesmo as pazes com isso. Voces, Pai e Mâe, tem sido fantásticos na vida de lidar com um criança mais sensivel do que esperada. Um gigante emocional. Voces fizeram um trabalho irrepreensivel e aqui é o que consigo falar de muito obrigado.

Muito Obrigado.

Hoje minha avo faleceu. Minha primeira frase a minha mãe logo cedo pelo telefone ainda dormindo : Ela não viu o Gabriel. Não viu , soube que você vinha, mas não viu esse particular arranjo de átomos que é voce, feito com os mesmos tipos de átomos de uma estrela (menos helio;… não sei se voce tem helio ai dentro). O Gigante feito de pó de estrelas. E é feito de coisas secretas e de dobrinhas nos olhos, e chutes e bocejos e vida. A barriga é só um jeito diferente dos atomos e agruparem e que só por isso diferem de um morango.  Você e um morango são feitos das mesmas coisas, mas o que fazemos depois disso é o que nos diferencia.

Gigante. Gigantesca coisa aqui dentro. A gente faz as pazes com o passado mas ainda leva alguns ressentimentos. Acho que vou pedir pra subir nos seus ombros para enxergar mais distante, meu jovem gigante de mármore. Estava incompleto sem você e sua mãe. Perdido. Hoje você já escuta musica na barriga. Hoje você me faz sorrir num dia de perda e nostalgias.

Gabriel eu te amo mesmo sem te conhecer e prometo te amar para o resto da sua vida. Desculpe os empurrões na barriga da sua mãe, mas minha inveja do útero é que faz isso. E é divertido.

E se eu der leite isso será um segredo secretissimo entre mim e você.

Tchau vó. Saudade dos bolinhos de chuva e banhos de esguicho e Lolos na saida da escola . Isso fica. O resto o Universo pede de volta.