Mil Oitocentos e Vinte e Cinco Dias

IMG_0773.jpgIMG_E0751.jpgCinco anos. Colcados assim adquirem menor importância do que o título sugere, mas é tempo do mesmo jeito. Adquiri essa mania de contar os dias.  Um por vez. Todos com a mesma importância que vem do tempo de ver você acordar,  dormir, comer, ir a escola. Tempo é algo precioso, um rio que flui, as vezes parece correr. Esse está correndo

Daqueles 90 dias de você me olhando na banheira. Algumas viagens. Uma ausência. A presença.  A festa do seu aniversário onde pulou e correu e comeu e riu. Não adianta muito escrever sobre o que é uma festa de aniversário de criança. Não é sobre isso que abro esse computador para escrever desse meu jeito torto, mas sim o que foi e o que será esse tempo. Nem ao me olhar no espelho vejo o tempo passar, porque o tempo é sutil as vezes. Sinto o tempo ao passar a mão pela barba que te espeta e perceber que ela cresceu. Eu, por acaso, sinto os dias atualmente ao acordar.  Isso porque, meu filho, a gente já não se vê todo dia. Não é mais todo o dia que te vejo ir dormir. Não é mais todo dia que te vejo acordar. Isso você vê. Isso eu sinto.

Eu, papai, já não moro mais na mesma casa que sua mãe. Sem ressentimentos. Apenas não moramos mais juntos. Eu, Rogério, tenho uma outra casa. Que é sua também. Onde há o quarto do filho, com alguns brinquedos ainda espalhados tentando desesperadamente fazer volume. Com armários e gavetas ainda vazios de pequenas cuecas e pequenas calças, que estão sendo usado para grandes malhas que ainda não sei colocar no meu espaço.  Não sei onde colocar tanta coisa, não pela falta de espaço nessa nova pequena casa, mas por ainda sentir-me meio perdido sem tropeçar em dinossauros e carrinhos pelo chão da casa. Parece ainda que você não ocupou esse espaço.

Sua presença existe todo dia virtualmente, pela tela do celular, onde me mostra um livro novo, ou um desenho, ou simplesmente da tchau. É tudo novo nesse espaço que ficou aqui dentro. Como se não soubesse aonde arrastar os moveis novos ou a estante nova. Mas tem lugar. E tem estante. Só entender onde colocar.

Uso essa metáfora de estante, porque na vida real, ainda não tenho estante para exibir minha literatura. Talvez estantes sirvam para que uma historia que gostamos, poder estar a um braço de distância, evitar a saudade, vendo sempre o tomo do livro ali. E como evitar a saudade sua? Te colocar em uma estante? Você ia ficar pulando e subindo a estante de novo e de novo. Meu medo filho, é que não queira subir na estante que vai ter na sua casa nova. Meu medo, hoje, é isso do dar tchau. E estar ausente. E achar que isso normaliza, essa saudade de um dia.  Há saudade do pé na cara as duas da manhã depois de você pedir cama para um sonho de dragão que corria atrás de você. Ter saudades dos seus pesadelos é maldade minha. Dá mais saudade de quando lembro de você falar sonhando e gargalhando. Saudade do seu sonho. Mas você já dormiu aqui. E, por uma dessas manhãs abençoadas, eu acordo com seu bafo de criança e mão aninhada na minha nuca. Ocupou o espaço.

Da primeira vez que dormiu, acordou espantado dizendo “Passou a noite inteira e já é dia? Iupi!” O tempo passou; sai da cama baixa e vai correndo para o mundo do Lego que montamos noite passada, enquanto eu ainda tateio o raio da manhã e checo o relógio para ver se já é depois das 9. Era 7:30. Tudo bem. Mais tempo de você. ” Vem Pai!.” O Pai agora tem que estar sempre no mesmo recinto, mesmo que um quarto do outro tenha a distancia de exato um passo. Não é no recinto, é na brincadeira real. É o famoso estar presente de corpo e alma.

Não é simples, mas é a vida. Papais e mamães em todos os lugares por vezes moram em casa diferentes, mas continuam lá, para te guardar de dragões, passar manteiga no pão e trocar o xixi que vazou a noite. Um de cada vez, agora. Mas em uníssono, pelo menos por aqui. E dou graças a isso. O que sinto hoje é a transformação do amor com a Tania por algo de conexão, de troca e compasso. Ajeitando, será que precisamos de um metrônomo? Fazer o papel do Pai, espero estar a altura para você e sua mãe. Nunca ser pai de fim de semana, ser pai de todo dia e criar junto. Mas é tudo da ansiedade de como vai ser. Como era estava destinado a esmaecer. Mas o uníssono não esmaece. Metrônomo de sentimento.

Tempo, tempo , tempo. Dar tempo ao tempo. Plantar uma semente e regar e torcer para ela vingar. Cuidar de jardins , limpar a mata antiga e deixar as flores que valem a pena cuidar. Tudo demanda tempo . E hoje é o tempo que tenho que entender quando você vai estar devidamente empossado do seu novo quarto, que agora tem um pequeno abajur em forma de girafa de luz, um abajur que ilumina o suficiente para deixar o quarto aconchegante; esse ponto que faz o quarto por horas vazio permanecer de você . Tempo e espaço, filho. Para preencher meu tempo e meu espaço que levo aqui dentro.

Tempo de entender a família nova, o carinho mudado do papai e da mamâe, os medos de cada um, os seus medos. A sua braveza que sente agora, e não sabe como lidar. Papel de pai: a casa nova é sua e segura. O Filho Eterno espera aqui o filho real, em um quarto que vai estar cheio de você e de mim, e de alguns Legos.

Hoje estou aqui na sua casa de mãe, equanto vigio sua febre alta, dor no corpo, prostrado. Dodói não deixa descansar. Vigio o corpo e acendo a luz da girafa para guiar a alma.

Alma é uma palavra que uso tão pouco mas sinto tão presente. Alma para um ateu como eu era assunto proibido, mas sinto esse abrir de mente para forças, coisas, entidades, anjos, conexões. Girafa de luz que acendi aqui dentro. Estava  um pai desconexo, faltava esse abajur aqui dentro durante uns tempos. E hoje, voltando aqui nessa casa que já não é minha, sinto conexão com você, coisa que só alma para explicar. Sinto a parceria que é a confiança que sua mãe deposita em mim. Por fora rebuliço, na alma calma. 39,7 e a febre não dessce. Mas desce sim filho, e o dodói vai embora.  A gente as vezes vai lembrar deles, como uma cicatriz, mas eles sempre passam. E a gente, papai e mamãe, aqui, no lar possível para todos.

Minha esperança cresceu. Meus planos mudaram de ontem para hoje. E minha casa mudou de novo de ontem pra hoje. A casa é um espaço, só isso. Mas nesse espaço que a gente faz lar. E você tem dois! De amor tão grande e irrestrito, que já nem me preocupo com os dinossauros ou a falta deles na minha casa.

O dia mudou e o limite das casas pode parecer se desfazer mais uma vez. Talvez para você seja dificil entender isso, mas o centro do espaço que é lar não muda. É o que me lembra de cortar a barba, dobrar as roupas, preparar o jantar, manter o rio do tempo fluir e acima de tudo sonhar e torcer para que a pele nova que visto seja leve. E que ainda dê para te sentir.

Vai embora, febre. Vai embora que meu filho quer nanar no lar que estou a descobrir.

 

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O Cheiro da Memória

–  Ai, pai! Sai daqui! Você esta com bafo de banana velha.

Papai tinha fumado. E comido uma colherada de Nutella.  Já disseram que tenho um cheiro único. Já disseram que cheirava a batata podre. E você solta puns. Fedidos. Bombas mesmo. Comeu um urubu. E se diverte.

Eu quando cheiro a batata podre não me divirto mais. Todo mundo solta um punzinho numa hora inoportuna, e isso é normal, mas aos cinco é quase uma manifestação na Paulista contra o fascismo; -Soltei sim!.

A gente cheira único, e grande parte da memória da relação fica ai. Tem gente que é mais perdigueiro e vai ver cheiros na gente que nem a gente sabe. Aquele cheiro familiar, próprio, que só a gente tem. Você, tirando os puns, cheira a Gabriel. Não dá para explicar, é um cheiro de pele mas única, não tem perfume,nem pum… mas aposto que se me vendassem e te colocassem entre outras crianças te achava pelo cheiro. E o engraçado é que você fala o nosso cheiro. – Mamãe esta cheirando a shampoo. Qual será o cheiro caracteristico da sua mãe? – Cheiro de mamãe, ué? – me diz. Meu cheiro te agridiu, é certo. Quanto dessa memoria será levada. -Meu pai cheirava a…  Quanto eu faço hoje, com você aos cinco, que esta se fundindo na memória e ajudando (será essa a palavra?) para me construir como pai? Esse ser que fala a hora de dormir, de acordar, prestar atenção na comida, sair do celular e quando não esta muito embarulhado gira uma poltrona da sala que é nossa máquina do tempo ou te jogar na cama de alturas cada dia mais ousadas.

Eu lembro de como meu pai cheirava. Cheirava a meu pai. Vinha do consultório onde é dentista, e tinha essa mescla de cheiros que não sei colocar em palavra, mas era cheiro do meu pai. Um pouco de desinfectante misturado à pasta de couro. Tem gente que guarda cheiros meus. Eu guardo uns outros, especiais. Tem um que para mim é inesquecível. O da Escolinha da Tia Uta. Com meus 3 anos para 4. Só posso descrever como cheiro de massinha de modelar feita de madeira. De quando em vez sinto esse cheiro e me remete para lá instantaneamente. E é engracado como esse cheiro é fugidío! Logo passa. Não sei de onde veio. Assim, talvez, como vai ser com você quando crescer. O Cheiro do Seu Pai. Que você deu nome. Mas será que vai ser só esse?

Se tivesse que falar em cores, diria que a Tia Uta cheirava a amarelo escuro. Meu pai, a um marrom couro, minha mãe verde. Forço um pouco a barra contigo, mais pela minha insegurança de estar cheirando somente a cigarros e não a Nutella, e pergunto:

– Que cheiro eu tenho?

– Cheiro de papai.

– Sim, mas como é esse cheiro?

– De papai, ué?

– Se fosse uma cor, que cor seria?

Pensa. Olha para mim com uma das narinas meio entupida de catarro.

– Azul…não, blulbérri.

Sossego. Sossego? Ja disse que os gregos não tinham a noção do azul. Já os Egipcios conseguiam produzir o pigmento. Azul era um pigmento raro de se fabricar no Renascimento. Destinada a realeza, usava-se o  lapis lazuli, um pedra cuja grama era vendida tão cara quanto ouro. Era o ultramarinho. Azul era o mar em que pulei que logo tornou-se índigo e depois verde. Você olha para o céu e instintivamente sabe do que se trata aquela cor. Talvez os gregos não. A onda com mais energia dentro do espectro eletromagnetico visivel, que identificamos como azul. Na imensidão do azul a gente pode se perder, assim como na memória. A sua ainda se forma, entre Nutellas, cigarros, sabonete (sim, tomo cuidado com os cigarros), pastilhas, perfume, talco para os pés, desodorante, suor.

A gente guarda os cheiros na parte da memória emocional que se ativa feito uma arvore de natal quando pensamos neles. Grama molhada, café (exceto para algumas grávidas), papel, mimeografo ( geração X sabe do que falo), latas de filme antigo (vinagre), gérberas, um perfume de 22 anos atrás, colonia para bebês, comida recém pronta, vela, carne queimada por um bisturi elétrico marcou seu nascimento. Era doce. Tudo isso é fácil. Tudo isso me construiu. E a você? Qual será o cheiro da sua escola? Vai se lembrar dele e imediatamente estar lá de novo?

Dou minhas escapadas à noite na despensa, e dou aquela colherada cheia de Nutella para dentro da boca. Você volta logo com a frase : – Papai tá cheirando a Nutella. Melhor que banana velha. Ás vezes é pizza. Ás vezes bolo. Mas é isso. Para sentirmos cheiros precisamos estar pertos, proximos E dai não importa muito como serei lembrado. Banana velha, Nutella ou blueberry (achei pernóstico deixar la em cima em inglês. Vai que é uma cor que ele inventou?). Vai ter esse cheiro que um dia você vai lembrar: esse era o cheiro do meu pai. Que estava do meu lado, na minha casa, no meu carro, na minha cama. Papai está do lado. Que seja só o corpo e o cheiro nesses dias estranhos.

E que não seja de batatas podres, um dia de cada vez.

E Azul é sua cor favorita.

 

O Meu Sentimento Oceânico

Você fazia aulas de natação, até que um dia desistiu de ir. Já pulava, mergulhava, atravessava a piscina (bem, da segurança de um professor a outro, mas um Phelps por esses olhos aqui.) Mas desistiu. Disse que tinha medo. E a gente tentando entender esse medo, se era de um professor, da água, dos colegas. Sentia medo. Eu sinto medo.

Você me ve sentindo medo e talvez esteja puxando isso demais de mim. Eu não tenho medo de psicinas. Mas eu tenho respeito pelo mar. Como uma vez, que eu, todo heróico, me lancei de uma escuna que havia parado em um ilha direto ao mar para chegar a praia nadando ao invés do bote. Lá fui eu. Primeira braçada, decima terceira braçada e a praia ia ficando cada vez mais longe. Centesima braçada, e a praia de revés. Tinha meus 25 na época, tinha pulmões, pernas e audácia de sobra. Não sobrou. Me vi uma hora desistindo, boiando enquanto tentava recuperar o folego e dizendo : ” É isso. Essa é a hora da minha morte”. Não ria. Você tem a mesma dramaticidade que eu. Basta uma topada em um armario e o ” pé quebra”. Foi importante não me manter em paz com aquele sentimento. Me fez virar de novo, com medo de me achar novamente longe e sem pé, e  dar uma braçada… que ficou na areia. Estava con uns 30 centimetros de agua ate o chão. Já havia chegado. Cansado. Pernas bambas, tremia, mas vivo. Um pouco envergonhado, claro, mas vivo. Lembro de ficar uns minutos sentado, recuperando o folego e me maravilhando no final de ter ido até o fim. Era maravilha aquilo. O azul, a escuna ao fundo, o bote que chegava. E eu quieto. Não falei a ninguém da experiência. Pela primeira vez senti.

Hoje você se limita a mergulhar nuns 30 centimetros de agua potável, rodeado de dinossauros e baleias, na banheira da sua casa. E fica ali boiando por vezes. Cabelinhos soltos na agua, pernas abertas, pipi sem censura. Dono. Quanto de oceano a gente precisa para se sentir assim? Aquele que eu estive? A piscina que te da medo? A banheira de casa? Só por que é segura demais? Tem mais la fora.

Acho que nessas horas eu me lembro e você me ensina que o importante é flutuar. A praia esta lá, cuidado com a correnteza, mas a praia chega. Se ela te ama ela chega. E você me falaria: Praias amam? Se a gente as admirar sim. E chegar à praia é só metade da aventura. Você chegou, respira de novo, perna tremendo, sente o grão de areia que há milhões de anos tem sido feito no vai e vem das ondas e se sente parte. Olha as árvores, a pequena montanha da ilha, toca na areia de novo. Desenha. Vê um carangueijo fugindo. Que história para contar se tivesse simplesmente desistido de boiar. Acalme-se, te ajudo se precisar. Entenda o seu medo.

Quando a gente desiste da psicina tem que entender o medo, Gabriel. E ver ele de frente. Quando a gente desiste de ir ao circo porque tem medo, tem que entender esse medo. É o novo? É o maravilhoso que a gente teme? É a experiência?

Já tratei dos meus medos aqui e te asseguro: vai. De novo, vai. Boia na agua na hora que tudo mais estiver perdido. Mergulha quando da pé. Ou quando não da. A gente só vai saber mergulhando. Mas não deixa de mergulhar nesse oceano. Tive uns medos que me impediram de chegar em praias tão lindas. Espero que ainda estejam lá.

Mergulhar nesse mar ciano azulado; Dizem que os gregos não conseguiam entender a cor azul do mar. Discussão longa, que na Odisséia o mar é retratado como cor de vinho. A palavra azul não é mencionada. Hoje, nessa banheira, a cor da agua é transparente, branca pelo plástico da banheira. Mas e o mar onde me afoguei? Mas e a psicina de que tem medo?

Azul. Deitar no azul e deixar o medo ir embora. Esquecer desse azul. Na pisicina você se sentia completo de sentido aos meu olhos te vendo brincar e pular e mergulhar. Parecia estar num outro elemento, oceânico, por mais raso que fosse. Teu oceano. Acha teu oceano e mergulha, sem medo.Nem precisa ser mais a pscina da aula de natação.  Mergulhamos juntos e descobrimos cores diferentes lá embaixo, saindo do raso, arranjando guelras e se maravilhando com a possibilidade do ir além do medo. Explorar. Tocar. Amar. ufa, cara! Quanta coisa tem aqui!

Torço, Gabriel, para que um dia seja e me mostre que é ” Um ser imerso de sentidos em um oceano de revelações.”

Pulo no meu oceano ( que para mim é índigo) e procuro essas revelações. Acabo achando em mim mesmo, na simples coragem daquela braçada que desafiou o medo de não chegar.

Tchibum!

Os Leões Reais

A gente brincava muito mais de Lego e blocos de construção. O curioso é como você gostava de construir cercas para seus bichos. Sempre em zoologicos. Alias é isso. Sua relação com bichos que acho que tenho que escrever. São quase que infinitos nas suas caixas de brinquedos, separados as vezes por Eras geologicas, por habitats, entre herbivoros ou carnivoros. Mas no final a gente sempre coloca tudo na mesma caixa e até hoje nuca vi eles se devorando. Mas são sempre de brinquedo, idealizados diria.

Espero que se lembre de nossas idas as ” fazendinhas”. Tem uma no meio de São Paulo, ali na Zona Sul. E outra perto da Granja Viana. Sempre pedindo para ir. E eu sempre na esperança ” Hoje você fica no chão”. Mas na hora de chegar perto dos cabritinhos e dos porcos soltos, é colo. Temos tanto em comum…

Tem o Chocolate nessa da Granja Viana. Um bufalo de suas centenas de quilos, que você fala com um carinho quase como um amigo de escola. ” Vamos ver o Chocolate?” . Faz um tempo que não o vemos. Nele você pede para subir em cima, da comida. O que te faz confiar tanto no Chocolate ( que na ultima vez ganhou um amigo, oToddy) e fugir dos outros tão reais quanto? E você leva a experiencia do Chocolate para casa. Pede para visitar de novo e é isso.

A fantasia de cercar os búfalos de plástico em casa e cuidar dos leões para que não se aproximem tanto das zebras, afinal, um pode comer o segundo, porque não se repete quando nos deparamos com eles de verdade? E digo nós. Porque eu quando deparado com o real da “fantasia” tento tanto fugir e ter medo de só acarinhar aquele acontecimento alegre que pode mudar a vida. A gente vive mais na cabeça, parece.

Então, conselho de pai, sai dela. Sai. O Chocolate tá lá te esperando. Não tenha medo daquele monte de patos que vem pedir comida na fazendinha. A realidade, meu Gabriel, é boa. Ela tá la. E ela foge, filho. No dia sequinte a gente não esta mais na fazendinha, a sensação de passar a mão no focinho do cavalo foi embora e a gente não pegou. Importa pouco quanto eu falo que é seguro. Você continua com medo. Me espelho. E me assusto.

Se bem que você ja tirou leite da vaca que tem lá, né? Até nisso foi mais corajoso que eu. Não tenho problemas com vacas, mas tenho problemas com a experiiencia do real. Daquilo que a gente não pode cercar com Legos. Daquilo que não é de plastico. Daquilo que é oferecido como mais uma experiiencia de vida. Te garanto: o máximo que pode acontecer é um dia a lhama cuspir na sua cara. Tô lá do lado. Vou rir, desculpa, mas você vai ter historia para contar. Me ensina, meu caro? Me ensina a não ter medo? Me ensina a descer do colo, pisar no chão, se aproximar do real e experimentar?

Você ainda pode se dar ao luxo de pisar na fantasia. Eu cada vez mais tenho que pisar no real. E é bom. Da medo, mas é o caminho a trilhar. Vá fazer seu safari fotográfico na Africa. Vá ver os Leões Reais. Reais e reais. No Discovery a gente vê ainda esses documentarios bem gráficos sobre a vida na Savana. Va ver de perto. Ou de uma distância segura, por favor. Mas vá. Depois fica aquilo ” poxa, podia ter visto de perto…” . Essa é a pior sensação que alguém pode carregar na vida: “poxa, podia…” E ficar só nos bichos de plastico.

Quando eu era pequeno, da sua idade acho, lembro de ter sonhado/ visto/ fanstasiado/ alucinado, um leão que saía da minha cortina. Carrego ele até hoje, e jogo ele nos meus medos. Não alimente esse leão, caso você venha a carregar um. Alimente o leão (ou leoa) que corre atras da caça, que se lambe ao fim do dia, que bebe agua do rio. Que vai.

O Chocolate continua lá, espero, pedindo nossa visita. Esperando pelo amigo, que sobe nele e acarinha a cabeça.

E também tem ao longo do caminho minha flor favorita. A gérbera. vamos?

Teen Titans Let’s Go

Gabriel e seu tablet. E com ele a cultura popular. Não, não é cultura pop que isso é Andy Warhol. Mas é uma cultura que faz ” POP” como a minha das reprises de Pica-Pau e Tom e Jerry não fazia. Ou a cultura moralista de He-Man e seus orcaulos de sabedoria. Ou a cultura amorfa dos Herculoides e Hanna-Barbera. É diferente. É novo, e não se deve temer.

Sim, claro também havia Bambalalão, programa de auditório com brincadeiras e e as famosas cartinhas (tive a sorte de uma delas ser lida no ar.) Tinha o Sitio do Pica-Pau Amarelo. Nunca me esqueço dos episodios do Minotauro ou o medo da Cuca. E não reclamem: toda essa nossa geração X também foi criada em frente a uma tela. Tela pouco interetiva. Há poucos anos ( e para quem tem cinco, isso significa dois anos atrás), Gabriel ficava em frente a TV da sala, e quando algo que ele não queria ver, levava sua mão à tela e fazia um gesto como alguém que quer escolher o proximo video no Youtube.

Um que se chamava Zoobabu. Quando não aguentava mais ver as repetiçoes dos 26 episódios, Gabriel me deu a primeira mostra do que é crescer. Não queria mais ver. Zoobabu começava com o que parecia ser uma caixa de sapatos e aos poucos, através da narrativa de uma voz de menina, a caixa pedia que ela advinhasse que animal que era. E aos poucos a caixa ia se trasnforando em leões, joaninhas, passaros. Até que Gabriel disse que não queri mais ver; (usavamos como um sonifero da noite) me disse com um sacudir de mãos: mas é só uma caixa! Perdi ali a magia do olhar de quatro anos, a magia da cultura que faz “pop” e se desfaz em seu prórprio truque.

Hoje é dia de maratona de Teen Titans aqui. E eu vejo junto. Mas confesso que há essa nostalgia (palavra tão presente na minha cabeça esses tempos) da época de quando ele tinha apenas uns dois anos e meio e ia me receber na porta para vermos Andando com Dinossauros, série da BBC que mostrava, ora pois, dinossauros em seus respectivos periodos. Orgulho meu. Ele sabia o nome de todos, das Eras e dos Períodos. A mãe achava violento, pois era um tipo Vida Selvagem com presas e predadores em CGI se resagando e se comendo no melhor estilo britanico de produção da BBC. Ele falava que eu era um Titã (herbivoros gigantescos como os Diplodocos, imponentes e impasiveis. Gigantes). Ora garoto, segue outro. Seu pai é só seu pai. Titã? Não, sinto muito.

Mas hoje é dia de Teen Titans! Do humor descabido, do humor que eu entendo talvez mais que ele, do nonsense, tão sofisticado quanto o Pica-Pau ir a um psiquiatra chamado Hanz Chucrutes e nadar em seu tapete.E cada um dos Teens com seus defeitos. Suas imperfeiçoes. A arrogância, a vaidade, a introspecção. E ainda assim, uma turma que se sente heroica.

Como me sentir heroico em dias de hoje? Como se há contas para pagar, passados a serem resolvidos. futuros a serem planejados. Queria eu ser cultura ” pop” e apenas explodir na medida que me cabe. Hoje implodo na quase desesperança que as horas gastas em um tablet do Gabriel rivalizam as minhas de anos atrás quando ele andava nas minhas costas enquanto comiamos grandes angiospermas do periodo Cretáceo. Ou assim fantasiavamos.

Mas hoje é dia de Teen Titans! E ao mesmo tempo que tentava prestar atenção ao desenho minha cabeça expodia em couve-flor, pensando: porque certas opiniões ao meu respeito ficam e não saem? Não sou mais Titã também para outros? Sou capaz de proteger os mais fracos do bando de um ataque de Tarbossauros? Sou capaz também de afagar uns cabelos lisos enquanto penso na miriade de possibilidades e conexões que aquela mente esta se formando. Com ou sem mim ao lado

Sem mim. Sem Titã. Sem pai herói. Sem pai que deixa ficar horas em frente ao celular. Com pai que esbraveja, que perde a paciência, que se quebra e é devorado por um ataque de Gigantossauros enquanto a manada anda. O Gabriel precisa de um pai afinal?

Mas, que poxa, hoje é dia de Teen Titans! Vamos nos nossos triciclos super poderosos voltar ao tempo e salvar o mundo. Vamos nos preocupar em que filme vamos ver no fim de semana, se não formos chamados para salvar a cidade do crime. E a capacidade de rir de si mesmos. A cadeia alimentar do Jurássico aqui, hoje e só por hoje, não existe. Vamos mergulhar no tapete vermelho da antesala do Dr. Hanz Chucrutes e no fim darmos por louco o psiquiatra.

Hoje eu queria poder reunir gente na minha sala de psquiatra e perguntar: onde errei? Onde eu fiz a volta errada, a palavra dita torta, que não sou mais Titã? Onde essa macho branco adulto cheio de privilégios se curva ao ponto de se sentir derrotado e dizer: Teen Titãs, vocês são minha unica esperança. Mesmo o Robin, que só tem um bastão. Não é facil mergulhar nesse carpete e achar que todo mundo va se divertir como eu me divertiria, ou como quisesse reunir todos nesse carpete. Você é só um louco patético, diriam alguns. E me daria conta das fibras pequenas do tapete, desligaria a TV e diria: Nao sou Titan (Titã) sempre. Não sou louco sempre. Não dou nó em psiquiatra.

As relaçoes de pais e filhos. De adultos e crianças. De modelos. Gabriel não foi o primeiro ” bebê” que ajudei a cuidar. Teve antes os sobrinhos da Tania e minha afilhada. A quem dava banhos e ajudava a amenizar cólicas. Aquilo eu sabia fazer, sem capa de super heroi, sem ser Titan. Era natural, era bom. E carrego comigo isso sempre, assim como os 90 dias de Gabriel, quando parei de escrever. Mas nunca parei de me interessar. Nunca dói tanto um desviada de olhar do Gabriel ou o silencio de uma afilhada. Podemos mergulhar todos no tapete de novo? Ou quem achar isso patético, podemos parar e conversar? Podemos retomar laços? Quando vejo Gabriel mais tempo no tablet do que me perguntando coisas me da esse frio na espinha. Não tenho os poderes da Ravena (sim, identificação imediata). Falta minha?

Hoje é maratona de Teen Titans no tablet. Em mim, fica essa maratona paralela de aceitar aquilo que não posso modificar, pois não tenho raios laser nos pulsos.

Preciso?

Da máquina do tempo e dos monstros

Apareceu essa grande caixa de papelão por aqui na sala hoje. Dentro, um tapete para bebês, que era para seus afilhados. Mas claro, que o tapete não lhe importou nem um pouco. Era a caixa. Um metro e trinta por 60cm. E o mundo la dentro. Começou com o esconderijo do Grinch. Depois virou algo onde só cabiam os dinossauros assim sem orderm própria. Depois começou o dificil.

–  Papai, o que pode ser essa caixa?

Eu adquiri um mundo maravilhoso de coisas que só acontecem na minha cabeça (a frase não é minha, mas de alguém querido). E para mim só podia ser uma máquina do tempo. Na verdade, para mim, máquinas do tempo são o que mais acontecem nesse maravilhoso mundo das coisas que só acontecem na minha cabeça. A possibilidade de voltar atrás e consertar erros do passado, pegar chances passadas, intervir antes que uma desculpa (que por vezes não vem ) seja necessária.

– Não- diz você-. E se ela fosse o esconderiljo do lobo mau e você fosse o lobo mau e viesse me pegar?

A carapuça de monstro se ajeita altamente confortavel em mim esses dias. Grunhi, levantei os braços com pouca vontade e te persegui pelo corredor durante um tempo até  deixar você sumir de vista, na dobra do corredor para a sala e permirtir que entrasse no esconderijo.

E senti cheiro de moleque de 5 anos, dizia.

E bufei e grunhi de novo.

E você quieto.

A caixa abre em supresa para ver o sorriso de orelha a orelha enquanto ponho a funiconar os dez dedos de minhas mãos em barrigas e costelas para arrancar garagalhadas. O Lobo Mau que não devora. O monstro mal feito. O monstro que não causa medo.

Monstros personificados são outra coisa. Para esses, só maquina do tempo. E voltar e falar o quanto o monstro que, mesmo que seja a critaura de Frankenstein, que de nada de monstruosidade tinha, tem que adequar seus modos aos modos e sentimentos de outras pessoas antes de grunhir de fome. Antes de grunhir da própria dor.

Tive grunhindo muito de fome esses tempos todos. Tanto, que me surpreendeu quando hoje você me chamou para brincar, me tirando desse estupor de luto, para saber o que fazer com uma grande caixa de papelão, que depois rodopiava (as custas dessas costas sem exercicído de quem escreve) pois era um avião sem controle caindo pelos céus. Você unico passageiro que ria. Nossa, deus nos livre…

Tenho dito palavras erradas. Com você e com outros. Mas não por monstruosidade, mas sim por tentar matar o ser bom que há em mim. Parece incongruente, mas sou vítima fácil de apontar e ser apontado em erro.  Parece que não quero dar força às vezes a noção que ninguém é bom ou monstro o tempo todo, que erramos, que machucamos, mas que também trazemos alivio. Da mão dada ao Saridon. Da promessa mal cumprida ao absoluto medo do primeiro passo. Do livro comprado as pressas ao doce da padaria.

Lembro-me de um ” cursinho ” de pais que fizemos eu e sua mãe, e uma das tarefas era dar banho em uma boneca. Era minha vez após todas as instruções da enfermeira. Carregava aquela boneca de plastico barato, olhos ja apagados de inumeras imersões na agua. Ela pesava como se tivesse oitenta quilos. Tinha mil dedos e mil atenções. Minhas costas travaram. E quando foi hora de tirar a boneca da banheira achei que não ia conseguir, tamanha a dor. Uma coisa que a enfermeira nos avisou é ” ao tirar a boneca não fiquem tentados a sacudi-la, como que para tirar o execesso de agua”. Foi a primeira coisa que fiz. Coisa de monstro. Trauma violento craniano pediatrico. Dá cadeia.  Havia dado banhos em bebes antes. Doces, atenção e carinho. Eu que nunca afoguei ninguém. O medo que deveria ter é afogar quando vocês são grandes.

E a tensão em seu primeiro banho ” não sacode! não sacode!”. Trauma vencido. Monstro ensinado, tal qual tivessem ensinado a criatura de Frankenstein a amar de verdade. O monstro treinou a ser bom ou apenas a prestar atenção? Monstro pacificado, que teima em reaparecer e eu teimo em alimentar, mesmo enquanto escrevo.

Como dizemos me desculpe, após a terceira vez? Quem acredita em um me desculpe de um monstro, pela terceira vez? O monstro não cabe em maquina do tempo nenhuma e segundo Hawkings, bem…

A gente muda, Gabriel. E fala que a caixa é sim maquina do tempo. Que nos leva, eu e você, ao Jurassico, ao Triassico, ao Ordoviciano, onde brincamos de ficar sem ar pois não existiam plantas terrestres naquela período. Mas não conserto erro nenhum com essa máquina de visitar Titãs. Apenas brincamos quando o T-rex se aproxima de correr de volta a caixa e se pirulitar dali. Eu faço meus pequenos remendos daqui para frente, e tento ficar mais com você, com cara menos fechada, com menos lagrimas nos olhos, com Lobo Mau sim, mas só de cócegas. Nada de Saturno aqui.

Eu queria muito uma máquina do tempo mas elas não existem. Eu queria muito não errar. Mas talvez dai, como saberia da minha própria monstruosidade?

Prometo ser apenas o monstro que me cabe. Prometo girar mais e mais essa maquina do tempo que só chega onde caminhamos com dinossauros.

 

 

 

 

Da Quebra

Hoje, Gabriel, quebrei. Feito máquina daquelas que a gente vê no Tempos Modernos do Chaplin, uma mola saiu, bateu numa engrenagem e a coisa toda pifou. Parou de gerar energia

Quebrei pelo meu medo de mudar e pelo que machuquei no passado.

E daí chego nessa casa e você de pijamas pula em minhas costas e faz ver que a máquina pode ser consertada. Engrenagem de volta, mola de volta. Faltou um parafuso. Deve ser da minha cabeça, mas deixa para la.

Sempre me falam para radiar e irradiar positividade, assertividade, energia boa. A gente tenta, a gente vai, mas tem horas que a gente quebra. Um dia, meu filho, sinto dizer, você também vai quebrar. E que quebre mesmo. E que encare a dor da perda, da ausência, do erro, do medo, da navalhada desnecessessária, do joelho ralado, da falta de mertiolate ou da simples noção que somos humanos e erramos. E que encare de cara limpa. Que faça doer. Que faça crescer e modificar aquilo que pode em você.

Pais quebram mais do que pensa. E sei que ja me viu quebrar algumas vezes. Tente se lembrar disso se um dia for ter um filho. Pais quebram, e isso acontece. Não somos superhumanos. Hoje você é um superhumano para mim, mas um dia irá perder esses seus superpoderes ou entender que nunca os teve. Apesar de poder jurar que é capaz de pular em minhas costas e dar um mortal na cama caindo de pé. Hoje você consegue. O dia que não conseguir, não se desespere.

Pais são mortais. No sentido de finitude da palavra. Mas espero que essa finitude dure para sempre. A gente é poeira de estrelas e vai voltar a ser. Conservação de energia.

Lembre sempre que luz é onda e partícula, e  essas particulas são chamadas fótons. E que cada uma dessas particulas que um dia bateram em minha cara claras o bastante para iluminar e fazer uma imagem em seu olho, se transformaram em energia depois em seu cerebro. E essa energia fez conexões intensas dentro das sinapses que se fortalecem a cada dia que me vê. Formam memoria. Memória então é energia. Que você se lembre do pai quebrado e do pai que se conserta. E que segue. Com energia.

Pai arrumado, Gabriel, graças a sua Graça. A algo maior e ainda mais energético. De o nome que quiser um dia. Mas entenda, que energia hoje vejo em você, ao acordar mal humorado, a pedir insistentemente para ir ao show do Discovery Dinossaur Experience (não, eu não vou te levar essa segunda vez, É muito ruim aquilo), ou subir nas prateleiras da dispensa da cozinha atras de Yakult as 10 da noite e odiar. Agora. Tô vendo isso. Energia.

Conserve ela, mesmo que vá contra as leis da termodinâmica.

Conserte o que pode e siga. Você me ajuda a ir em frente.

 

Parte do texto claramente inspirada em

Você vai querer que um físico fale em seu funeral